sábado, 30 de outubro de 2010

Minha primeira vez

   Um sentimento de culpa dominava meu ser há algum tempo. Minha consciência me perseguia, principalmente nas horas em que eu havia acabado de ler alguma matéria ou artigo em blogs e portais de notícias por aí. Esse sentimento ruim, no entanto, foi finalmente sanado após eu ler o blog de Marcelo Tas, mais especificamente, o post intitulado "Indecisos, nulos e em cima do muro: estou com vocês."
  Estas seriam minhas primeiras eleições presidenciais. Confesso que estava empolgada em votar - aos 22 anos você começa a perceber o peso da idade, aquele sentimento de "descer a colina", então é bom ter esse frescor de novidade. No entanto, mesmo que eu votasse (terei que justificar), meu voto iria para o "lixo". Sim, sou uma pessoa indecisa, nula e em cima do muro - tudo ao mesmo tempo. E isso me incomodava, principalmente pelo fato de eu carregar o papel de "jornalista diplomada". 
  Eu poderia dizer, como desculpa esfarrapada, em belas palavras, que sou tão apegada à busca utópica pela isenção e imparcialidade jornalística que meu dever de cidadã teria sido afetado. Mas a verdade é que, como tal profissional, eu deveria estar a par de tudo, e assim, tirar minhas conclusões sobre os candidatos com facilidade. Mas as coisas não funcionam dessa maneira comigo: muitas vezes concluo que me falta certa personalidade, força de convicção, ou, para ficar mais bonito, sou guiada pela "teoria da relatividade". Quanto mais informação eu tenho, mais blogs (com toda sua carga parcial) e matérias leio, mais confusa eu fico. 


  Para minha surpresa, durante estas eleições meus colegas de sala realizaram uma discussão ferrenha por e-mail: apoiadores de Dilma X Serra. Foi surpresa porque ainda tenho a imagem daquela galera, geração crise-existencial-pós-moderna, e que, mesmo fazendo Jornalismo, só queria terminar logo os trabalhos e matérias e ir fazer qualquer outra coisa que não fosse ligada à obrigação de estar na faculdade - nisso me incluo, claro. Quando vi amigos tomando posições partidárias tão claramente, embasados em seus argumentos e muito bem informados, aquilo me chocou. Eu continuava no meu limbo, fiel representante dessa geração pessimista - e talvez acomodada.
  Antes do primeiro turno, comecei a questionar, via Messenger, em quem meus amigos votariam. Um deles me respondeu algo que define bem nossa sensação: "Eu juro que tento ter esperança que alguém vai de fato fazer algo para melhorar, mas o sistema não permite então acho que se dane em quem você vai votar, vai continuar a mesma merda de sempre". Algumas pessoas pensam assim, mas como ficou confirmado pela "Onda verde" do primeiro turno, a maioria dos meus amigos falaram que votariam na Marina. Sim, achamos linda a causa ambiental e temos a sensação de que os outros candidatos e seus partidos tem um discurso velho.
  E é aí que começou meu problema. Apesar de eu sempre simpatizar com Marina Silva, me ficou a impressão de que ela era apenas mais uma, igual, disfarçada numa nova roupagem. Entre Dilma e Serra eu não gostaria de votar, mesmo reconhecendo algum mérito em Lula e tendo uma inocente simpatia por Serra - como minha raíz de católica não-praticante, em casa sempre existiu um certo clima psdebista-não-praticante, contra um PT "bicho-papão" radical. Uma alternativa seria, talvez, o velhinho provocador, Plínio Arruda. Pensei nessa possibilidade e me surpreendi de ver outros amigos optando, com firmeza, no PSOL. 


  Mas então, novamente, fui facilmente influenciada por um outro amigo. Eu respeito muito suas opiniões e geralmente as compartilho. Para ele, Plínio teria usado um tom ameno e deixado de afirmar sua bandeira socialista. "Já está provado que se adequar ao sistema para chegar ao poder é fórmula perversa e fracassada. É um caminho sem volta. O PT tentou convencer seus militantes que estava mudando apenas o discurso em 2002. Mentira. Estava negando, na prática, o seu histórico de lutas, tudo aquilo que sempre defendeu", me disse.
  E assim, mais uma vez, o SISTEMA foi lembrado. Sempre nos incomodando, nos impedindo, nos podando. A alternativa? Meu amigo, para minha surpresa, diz apoiar o PSTU. "Independemente de questões mais profundas, como o fato de ser um partido revolucionário (o que causa muitas piadas), é um partido que comprova que "político não é tudo igual". O PSTU participa da campanha eleitoral para divulgar o seu programa, as suas diretrizes. Não está preocupado em obter voto a qualquer custo."
  Quando começo a simpatizar com as ideias, meu amigo me corta a esperança. "Mas, sinceramente, o partido não acredita que chegará ao poder dessa forma, através deste processo eleitoral. Não há ingenuidade neste sentido. O que ele acredita é que, havendo a revolução, havendo a mobilização de massa, seja daqui 50, 100, 1.000 anos, é preciso um partido socialista para dirigir este movimento". Pelo que entendo, alguns teóricos (bléh, odeio essa palavra) acreditam que nunca houve um país genuinamente socialista porque os que tentaram acabaram em Ditaduras. E assim penso: "Se já tentaram em tanto lugar, será que aqui no Brasil funcionaria? E quanto tempo isso vai levar?". Fico descrente, ou pior, com aquele sentimento individualista. Toda essa história me faz pensar que sistemas de governo, ou melhor, formas de viver como um coletivo e todas suas teorias estão muito longe de minha realidade e de meu singelo voto nas eleições de 2010 da República Federativa do Brasil.


  Ao final, em uma de minhas enquetes via Msn, eis que toda minha dúvida é apenas confirmada como um estado de espírito natural. No meio da conversa sobre quem fulana ou cicrana vai votar, uma amiga diz:
  - MAM Bahia.
  - Que isso, tá doida? Isso é partido, é?
  - Não, tô falando do Museu da Bahia. Tô fazendo TCC, só penso nisso, sei lá em quem vou votar.
  Nessa digressão, ela acaba começando a falar sobre suas pesquisas, sobre arte, e me tenta explicar algo em poucas palavras: "O contemporâneo, na verdade, é a mistura de muitas linguagens que a gente encontra no modernismo e no pós-modernismo, ou seja, aquela bagunça que ninguém entende muito bem". É, adoro sua explicação simples e direta e acabo achando que a arte contemporênea é uma ótima metáfora para minha cabeça contemporânea. Espero que no domingo vocês saibam o que fazer, porque eu...


7 comentários:

Gustavo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gustavo disse...

Vou votar em mim.

Aliás, pra quem ler isso aqui, votem em mim. Na urna eletrônica, apertem o 9, depois o 9 novamente e depois CONFIRMA.

Tenho outro número também como candidato: apertem o 0, depois o 0 novamente e depois CONFIRMA.

Não prometo nada. E, mesmo assim, minha proposta é melhor que a de seus candidatos. Mas agora, depois de ler isso, é claro que vocês votarão em mim.

Lu disse...

Gostei muito do post, minha colega de profissão. Dei boas risadas lendo.

Confesso a você que passei por essa fase da indecisão durante boa parte do primeiro turno e acabei optando pela Marina, por pura falta de opção. Já que, apesar da tal "onda verde", acho que a causa ambiental não pode ser, sozinha, a bandeira mais forte de um candidato à Presidência de país tão importante no cenário mundial como o nosso.
Aí, veio o segundo turno. E eu precisava me decidir. Nunca anulei voto antes e essa possibilidade me tirava o sono. Então, fiz algo parecido com o que você conta no post. Pesquisei, li, consultei e comparei um pouco do que vivo como jornalista, em se tratando de administrações peemedebistas e, digamos, lulistas, e cheguei ao "meu veredito".
Já tenho convicção quanto ao meu voto de amanhã.
E, sabe o que acho, o Brasil está mudando sim. Nós é que somos muito exigentes, muito reclamões. Queremos tudo pronto e a história não é feita assim. Ela é feita por seus atores: nós.
Até esta discussão que você propõe aqui colabora para que aprendamos a votar melhor, a escolher melhor.
Sinceramente, acho que o Brasil de hoje é muito melhor e mais respeitado do que o de há poucos anos.
Obrigada pela prosa! Desculpe ter falado tanto.rs
Beijo!

Cahe´s blog disse...

Enquanto o zé povinho...
- Não se lembrar em quem votou na última eleição;
- Não verificar se seu candidato foi eleito ou não;
- Não acompanhar seu candidato eleito;
- Deixar os "caras" fazerem o que quiserem (voto secreto no plenário? Ridículo, afinal, como não vou saber em que votou o distinto cidadão que ajudei a pôr lá?).


Nós podemos votar em qualquer um que não muda nada. Os trens da alegria continuarão saindo das estações, apenas de cuecas novas.

Mais claro é impossível: Eu voto no SERRA por simplesmente abominar o PT.
O PT é como a maioria das ideias deste nosso Brasil (CPMF... MST...) nascem boas e depois são deturpadas e usadas.

Tenho dito!
Cahe is a Blogger

Palavras Vagabundas disse...

Mari, compreendo sua confusão e sua desilusão, mas não acredito em quem não se envolve, votar nulo ou branco é uma posição comoda: "não votei, por isso não tenho nada haver com isso e acho tudo uma merda" OK,cara mas como você quer que mude se você não faz nada?
Não existe voto certo ou errado, existe se envolver e ter uma posição e se seu candidato ganhou ou perdeu não importa, pois após a eleição você tem que ajudar a fiscalizar e a cobrar, não ficar no boteco dizendo não tenho nada haver com isso.
beijos carinhosos
Jussara

Nicolau Ponte Preta disse...

Realmente vivemos tempos nada fáceis, despolitização generalizada e falta de interesse e entendimento sobre política, uma esquerda segmentada que no segundo turno deveria se posicionar e pressionar, o que é diferente de concordar, preferiu ficar com o voto nulo,"quem cala consente" o que reflete uma esquerda sem projeto de Brasil, mas cuidado "quem fica em cima do muro quando desce sempre desce do lado errado" Outra coisa, o voto não é fim é o início do processo democrático, que em seguida temos que fiscalizar, cobrar e se mobilizar e não sozinhos fechados em nosso quadrado, é preciso somar forças com quem está se movimento, as vezes devido o pensamento "mas posso contribuir tão pouco, simplesmente não fazemos nada!"

"Somos governados por quem gosta de política e temos os representantes políticos que merecemos". Tchau!

LUFE disse...

Vim comentar depois da "Presidenta" eleita. A sua duvida foi muito esclarecedora....rsrs
Quer dizer que você já esta descendo a serra no alto de seus 22 aninhos?
Tadinho do Matuzalem aqui....rs

bjo