terça-feira, 29 de setembro de 2009

TCCs e a hipocrisia intelectualista

Nos últimos meses do ensino médio, quando ainda não estava tão claro na minha cabeça o que eu faria da minha vida dali para frente, a piada de sempre era o meu incontestável destino caiçara. Como dizia às amigas, tornaria-me uma pescadora artesanal, casaria-me com um semelhante, barrigudo, de pés inchados e olhos vermelhos - de pinga matinal, e teria fihos escadinhas, com suas respectivas barrigas de verme e casquinhas de caca de nariz grudadas no braço.

- Josué, meu filho, joga a rede que hoje vai dar peixe! A lua tá cheia! A maré tá boa – essa seria a minha realidade na madrugada da pescaria diária.

O nome do meu filho, que sem tom de brincadeira, gostaria que fosse esse mesmo, sempre era tema de investidas preconceituosas, pois diziam que era um nome de “pedreiro” (desculpe-me a ofensa à classe). Sempre que o assunto na escola era vestibular, a frase acima, destinada a meu possível futuro filho, saía de minha boca. Certo dia, até o professor, ouvindo a brincadeira entre as colegas, sugeriu-me: “Ah Mariana, então porque você não faz engenharia da pesca?”. Ele falou a sério.

Tirando a falta de senso piadístico de meu antigo mestre, certo dia tive que resolver a questão: eu faria jornalismo. As amigas foram entrando também na dança das humanas, uma querendo a filosofia, outra ciências sociais, outra seguir Jeová aonde ele fosse...- a última encaixa-se em humanas?.

Bom, o fato é que cá estou, passaram-se quatro anos voando, e deparo-me com o monstro final: o temido Trabalho de Conclusão de Curso, ou para facilitar, TCC. Com minha falsa modéstia tenho a “brilhante” ideia de produzir uma monografia – mais teoria e pesquisa, tudo a cargo da pessoa mais preguiçosa e enrolona que já conheci: EU mesma. Leituras infindáveis de textos de outros, que servirão como referência, e para, entre uma citação e outra de terceiros, eu comprovar legitimamente que a minha tese é sólida e muito bem embasada.

Taí algo que eu não entendo. Quando você começa a ler estes teóricos, percebe que a essência do pensamento deles é pequena, porque eles também se basearam em terceiros – num círculo interminável que começou lá no Platão e foi parar na minha má e porca monografia sobre jornais e cultura de uma cidadezinha latino-americana sem dinheiro no bolso.



Em uma de minhas leituras, como em todas as outras que fiz no decorrer da faculdade, percebo o tom crítico, algumas vezes direto, outras velado, sobre o nosso modo de vida atual, consumista, mercadológico, desigual, neoliberal (os teóricos adoram essa palavra) etc etc e etcétera. Nessa hora lembro da amiga que faz filosofia, pois o autor começa a dizer mal sobre a área (pelo que entendi, já que esses textos acadêmicos adoram usar sinônimos da idade média para palavras fáceis). O cara fala da desvinculação do pensamento lógico da filosofia da realidade em que vivemos, de como ela interpreta e interroga as questões do mundo a partir de um método próprio em que está “presa”, achando-se dona da razão.

Eu começo a ficar perdida naquilo, pois para mim é tudo discurso (ou seria retórica?). No fim das contas, eu imagino todos os caras que escreveram os livros, e os citados nas obras, sentados em suas bibliotecas imensas, cheias de requinte, com um belo vinho a tira colo. Falando mal do mundo, desse sistema porco capitalista, e usufruindo de todas as suas vantagens(?). Uma das poucas citações que me fazem rir é sobre a antropologia. Um tal de Octavio Paz diz que “a antropologia resulta do remorso europeu a respeito dos ‘primitivos’”. Que a disciplina quer defender os índios, os negros e os primitivos da autodestruição dos europeus, por isso, a única salvação de que a antropologia é capaz é a de livrar os índios da própria antropologia – afinal, ela é um estudo criado por eles mesmos.

Eu largo o livro da mão quando o cara começa a dizer, citando outro, claro, sobre a busca dos círculos intelectuais de uma identidade latino-americana. Que o simples uso da palavra “latino” já fere os princípios, pois o adjetivo “remete para um derivado de uma matriz européia-ocidental”.

- PUTA QUE O PARIU, VAI TOMAR NO CÚ! Cara chato da porra, vai embaçar agora por causa de uma palavra! Então enfia o LATINO na #$&!# ! Diz então que somos CENTRO-SUL-AMERICANOS e chama os americanos de estadunidenses!

Minha avó, assustada, pergunta-me o que aconteceu. Eu começo a conversar com ela, e ela me diz que a teoria é importante, e não sei mais o quê. Eu adoro conversar sobre livros com ela, mas eu estou tão de saco cheio que não consigo engolir seus argumentos. Começo a pensar na minha primeira opção de vida a sério, largar tudo e virar pescadora, pelo menos faria algo totalmente utilitário, o comer para sobreviver, ao invés de ficar nessa lenga-lenga. “O que esses intelectuais precisam é de uma boa vassoura e um tanque para ocuparem suas cabeças, ou vão fazer um roçado e sobreviver do próprio alimento já que a sociedade de consumo é tão ruim assim!”. Na hora em que empolgo-me num debate filosófico-intelectualista com a minha vó, eis que surge o único ser pensante e verdadeiramente realista da casa, MAMÃE:

- O MARIANA, SUA VAGABUNDA, DESCULPA ATRAPALHAR A SUA CONVERSA INTELECTUAL COM A VÓ, MAS VEM ME AJUDAR EM ALGUMA COISA QUE PRESTA. JÁ QUE VOCÊ NÃO FAZ NADA O DIA INTEIRO, LIMPA ESSA GELADEIRA AQUI PRA MIM!

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

A Famigerada Cannabis Sativa

Durante os últimos anos, a maconha tem sido presença regular na minha vida. De toda a forma, mesmo sem ter experimentado, ela sempre teve o papel intrigador. Mas como disse a um amigo outro dia, quando ele me chamou para a tal da socialização, às vezes dou uma de Sandy, e ainda não conseguiria fazer algo ilegal. Mas o conceito que eu tinha da tal cannabis vem se transformando com o passar do tempo, em cada contato ou história que eu ouço sobre ela.

Nunca vi tantas matérias sobre o assunto, discussões e causos. Lembro-me das primeiras vezes que ouvi falar, desde as aulinhas do Proerd na escola até alguma história de uma amiga duma amiga, na oitava série. Eu, com a minha natural genética da atrasada, que sempre é a mais certinha e encanada do grupo, nunca teria mesmo conseguido experimentar, ao menos até hoje. É engraçado como a visão de algo vai mudando com o passar dos anos, como a que eu tinha sobre bebidas alcóolicas.

Recordo-me de como enquanto minhas amigas já iniciavam a adolescência bebendo vinho e misturando o “Tang com a Baikal”, eu ainda achava cerveja um mijo alcóolico com a única função de “fazer a social”, e me limitava às batidas. Hoje, posso dizer o quanto é prazeroso chamar aquela querida amiga pra tomar uma breja e trocar uma ideia. Mas não é só isso. Eu realmente passei a gostar da cevada, do sabor, e da sensação de bem-estar depois de alguns copos. Mas lembrar-me de como eu renegava algo que hoje é tão natural é engraçado.

Talvez a maconha seja mais polêmica – além do fato de ser ilegal – pela minha falta de aptidão física e psíquica para ter malandragem. Sempre admirei, e continua a admirar, o charme inegável de alguém que sabe tragar um cigarro, que solta a fumaça para o alto e dá aquele olhar de lado logo depois.

A minha primeira experiência com o cigarro foi na quinta série. Cinco meninas num banheiro de dois por dois, e aquele único e majestoso cigarro na mão da mais rebelde (a mesma que roubava os pirulitos da boca das que ela chamava de “patys frescas”). Ela, é claro, já se dizia expert no negócio, mas quando acendeu o fumo, deu umas engasgadas, o que gerou muitas risadas na roda, e logo protestos de silêncio, já que a inspetora poderia entrar no banheiro a qualquer hora. Enquanto o cigarro passava de mão em mão, eu lembrava-me de todos os ditados morais já ouvidos. E então, quando a garota ao lado passou o tabaco para mim, eu não consegui conter a adrenalina de estar fazendo algo totalmente novo. É claro, eu traguei, engoli a fumaça, e ela nunca mais voltou. De todas as garotas, mesmo que uma desse uma engasgada, tossisse, eu fui a única que não consegui liberar a fumaça para fora. E isso segue até hoje.


Mas é claro, o tal do baseado não é um simples cigarro. Outro dia assisti na tevê uma matéria sobre um traficante paraguaio que traz a maior parte da maconha comercializada no Brasil. Aí vem toda a questão das pobres-criancinhas-na-favela-que-vivem-no-meio-do-tráfico e se envolvem, em como eu estaria contribuindo para a morte de pessoas se utilizasse algo ilegal. Do outro lado, diz-se que a maconha não tem produção massiva em algum país, que as plantações já se espalharam localmente – fora os que plantam em casa por aí.



E diante de toda essa pressão midiática e social, já que sempre aparece alguém para te oferecer um tapinha, eu comecei a ter um gosto musical, sem saber, que me levava à maconha. Uma banda aqui outra ali, e de repente, quando comecei a prestar atenção nas letras, sempre havia menção de alguma weed, sensi, ganja, pot, herb, get stoned, get high, legalize e eu, intrigada com aquela repetição de palavras, fui descobrir, na minha pura inocência, no dicionário, o seu real e bombástico significado.

Mas já era tarde, eu amava as bandas, e não posso mentir que gostar delas fez que com que o meu conceito de “erva do capeta” passase a uma ideia de apenas ser algo para “te dar um barato”. Até porque, não conseguiria ser hipócrita de criticar alguém do meu lado enquanto ouço as músicas dos caras de fora que acham a melhor sensação usar a tal da sensimilla. E quem sou eu para dizer algo, se o cara fica apenas relaxado, enquanto eu, bêbada, sou capaz de encenar situações nada agradáveis para a minha consciência do dia seguinte.

O que não consigo entender é porque a maconha é criminalizada, se existe toda essa onda hippie desde os anos 60, se tanto metido a intelectual usa, se não existe nenhuma comprovação de que ela vicie ou cause algum dano grave como outras drogas ilegais. Talvez ainda faltem manifestações mais claras a favor, um enfrentamento maior de quem usa, como em outras situações de quebra de preconceitos na cultura ocidental. Quer dizer, às vezes vejo alguém comentando sobre maconha, mesmo que esteja trancado dentro de um quarto, mas a pessoa naturalmente abaixa a voz.

Depois de certo tempo, comecei a separar o mundo num AC - DC. Antes da Cannabis, Depois da Cannabis. “Será que fulano fuma?. Ah, esse deve fumar, sim. Esse não”. Ou “Fulano fumava, mas agora parou porque tá trabalhando e lá fazem testes de drogas”. Mas aí o conceito cai, até porque todo mundo sabe que estereótipo não existe, principalmente no caso da maconha. Porque TODO o mundo, sem biotipos ou roupagens, pode ser fumante, já ter fumado, ou simplesmente não lembrar que fumou porque estava bêbado. Se você olhar na rua, olhe bem para aquela garota produzida, porque ela pode fumar, ou até mesmo aquela velhinha sorridente, pode ser que ela fume com o neto.

Afinal, quem sou para falar algo daquele cara que fuma com a mãe, ou daquele amigo firmeza que conta sobre seus problemas com a cocaína, mas que hoje fuma seu baseado toda noite, na boa, para dormir, ou daquela garota que foi fazer um trabalho para a faculdade, e quando foi analisar um filme, uma vez sóbria, outra chapada, teve ideias que agradaram a professora mais quando tinha fumado um?

Chega um certo dia, um certo ponto, que os papéis se invertem. A última, e derradeira, é quando você vira e fala “Vocês vão ficar me discriminando só porque eu não fumo maconha?”. Só sei que olhei para o lado, e o cara gargalhava, um riso solto, leve, gostoso, que me contagiou, como toda risada. Eu ria, mesmo sem ter fumado. Mas ele ria melhor, pois tinha o maior motivo para aquela vocação. É, posso ser do grupo de não-fumantes, mas não sei o dia de amanhã. Enquanto acabo esse post, ouço minha música preferida do último disco do GLASS. O delicioso solo de guitarra antecede o inebriante refrão: “Who’s Got the Weeeeeeeed, I Got the Weeeeeeed”.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Ateu não-praticante

Lendo a Revista da Semana, me deparo com a seguinte capa: “Por que acreditar em Deus? - Os novos ateus se organizam, assumem posições radicais e crêem que um mundo sem religião é possível”. A matéria comenta uma campanha ateísta que está fazendo sucesso em Londres. Uma jornalista, sentindo-se ultrajada com slogans religiosos em ônibus, resolveu não dar a outra face (é claro) e revidou arrecadando uma quantia de 375 mil reais para também colocar propagandas, mas com a frase “ Provavelmente, Deus não existe. Agora, pare de se preocupar e curta a vida”.

Sempre tive dificuldades com essa história de religião. Já passei por diversas fases. Meu primeiro teste de fé aconteceu aos sete anos. Minha avó, portuguesa (= católica), e por tabela, minha mãe, também católica, propôs que eu e meu irmão frequentássemos a tal da catequese. A idéia não deu muito certo, pois assim que ficou claro que eu não poderia ir para a casa da minha avó, na praia, aos sábados, desisti imediatamente. Minha mãe, já nem tanto fervorosa, concordou.

Mais tarde, na adolescência, rezava um pai nosso aqui e uma ave maria ali, divida entre a própria crença e a vontade de acompanhar a minha vó em tudo o que ela fazia. No ensino médio, na hora do aperto, uma oração não fazia mal, e tirar a vassoura da bruxinha de biscuit presentada por uma amiga, e esperar o pedido ser realizado, também não custava nada.

Ao entrar para a faculdade, entrei naquela fase pseudo-intelectual, e tudo ficou confuso. A frase ridícula “Eu não acredito em Deus (observem o temor na caixa alta), talvez em uma força maior que rege o universo, na natureza, na visão holística (hum, que bonito!)”, era a minha justificativa em conversas. Hoje, com algumas responsabilidades a mais, sem aquele belo e fantasioso mundo azul que dá margem à fé e à crença no ser humano, tornei-me “realista”. Agora, a frase empregada é “acredito no poder de ação das pessoas, tudo é resultado do que fazemos ou deixamos de fazer”. E é aí que entra a minha nova fase: o chamado ateísmo não-praticante.

É difícil enquadrar-se neste segmento, apesar da maioria dos brasileiros, talvez sem saber, o praticam. Na hora do almoço, num dia fresco, descubro o resto de vinho, geladinho, na geladeira. Que tal tomá-lo agora, acompanhando da comida?. Afinal, os médicos dizem que um cálice diário faz bem à saúde. “Ah não, que coisa de bêbado. Olha aí, a garrafa não quer abrir. Vou pegar o pano de prato. Não tem jeito. Hum, isso é sinal”. Acreditem, eu consegui levar isso às questões religiosas.

O anjo e o diabinho em mim iniciam uma discussão filosófica totalmente inútil. (Meu berço católico estereotipa o anjo como crente, e o diabo, como ateu, é claro. Até por que ateus vão para o inferno, certo?)

- Larga a mão de ser idiota. Que sinal o quê. Abre logo essa garrafa e pára com essa neura e transtorno obesessivo compulsivo. Aliás, isso daí é superstição, você é uma cagona.

- Não é isso. Bom, mas se não tá abrindo, é melhor não tomar.

- Vai logo mulher, prova que você não possui crença nenhuma. O que você acha que pode acontecer ?

- Nada. Está bem, Deus não existe, destino não existe. Eu vou parar de ficar “O” temendo, se Deus quiser. Ops! (Juro que essa última expressão saiu dos meus lábios).

- Merda. Agora toma o vinho, vai. Depois dessa cagada de ateu não-praticante, é o mínimo que você pode fazer.

No dia seguinte, tenho um pesadelo com uma amiga que não falo há dois anos. Entro no msn, e converso com um conhecido, espírita, que segundo uma amiga, “não é profeta, apenas dá uns toques”. Ele começa com a frase: “Você está insatisfeita com algo?”. Para resumir a história, ele disse que eu tinha problemas não resolvidos com uma pessoa. “É família? Amigo?”. “Não é família, é alguém com que você não fala há uns dois anos”. “É uma amiga, né?”. “Essa mesmo”, ele responde.

Bem, eu nem perguntei se eu já estava imaginando uma pessoa específica na minha mente, mas tudo bem. Resolvo falar com ela, apesar de não saber quantos dados forneci ao garoto durante a conversa, para ele apenas apenas concordar afirmativamente, e eu me espantar. Posso ter sido levada a um caminho, dado brechas do tipo “ele é alto, cabelo hastafari, um olho azul e outro preto e tem uma cicatriz na cara?”, e a pessoa concordado. Mas após a conversa, resta a dúvida do que foi instigado e do que foi espontâneo.

Sempre observo conversas típicas brasileiras, realmente só devem acontecer aqui.

- Tô com umas zique-ziras.

- Toma uma banho de rosas, vou te ensinar o que aprendi lá na Umbanda.

- Eu ein.

- Que nada mulher, Candomblé é que não pode. Umbanda é espírita.

- Ah, tá. (Até hoje não entendi a diferença entre as duas).

- E essa medalhinha de Nossa Senhora? Você não disse que era ateu?

- A minha vó que me deu. Tenho que usar, tadinha dela. Fora que ela benzeu lá em Aparecida, não custa eu usar, né.

- Ah, tá. (Fim da segunda discussão).

(Saindo da missa)

- Ando com umas dores, e esses remédios não resolvem nada. Não sei mais o que faço, já rezei tanto.

- Vai lá no médico espírita, ele é tiro e queda.

- Mas se o padre souber ele não vai achar ruim?

- Que nada, espiritísmo é filosofia de vida, fazer o bem, fora que eu vou num centro kardecista, não são esses outros, não.

- Então vamos lá na quinta-feira ?

- Hum, quinta não dá. Já combinei de ir com a minha vizinha, a dona Tekiro, lá no Seicho-No-Ie.

- Ah, tá. (novamente).

Acredito que irei seguir com dúvidas pelo resto da vida, mas talvez me encontre em alguma religião, pois no fundo, apesar desse negócio de temer me incomodar, eu desejo ter fé para acalmar as questões da minha personalidade pós-moderna-perdida-totalmente. Só queria crer sem medo, aceditar mesmo, de forma totalmente natural. E acreditar no poder de ação das pessoas não é ter fé?. Só sei de uma coisa: os slogans da campanha ateísta são todos em caixa alta, GOD. Eles poderiam ter colocado a frase em caixa baixa obedecendo apenas as regras gramaticais, a primeira letra da frase em maiúscula. É respeito pelos religiosos ou é não dar margem ao tal temor?.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

A válvula de escape

Ao sair do trabalho num sábado à tarde, a única coisa que se espera é um ônibus vazio e tranquilo. Que cada pessoa esteja cansada e com seu respectivo fone do mp3 no ouvido, sem dirigir palavras ou olhares. Mas no fundo, sempre existem aquelas situações que despertam o espírito coletivo do ser humano, a necessidade real de trocar experiências e conhecer outros semelhantes.

Talvez não tão semelhantes, como o funkeiro e sua namorada, sentados no assento da frente do ônibus. Mas, notando-se bem, eles compartilham uma indumentária comum a você: a camisa do Santos. O boné chamativo do rapaz e o cabelo oxigenado e brincos exagerados da garota podem te causar estranheza, mas as camisetas sagradas te ligam emocionalmente de imediato ao casal.

Quando você percebe, a magia da adoração esportiva faz seu efeito. Os fones de ouvido não estão mais no local indicado, apenas descansam sobre a bolsa. Se fosse outro dia qualquer, não existiria conversa alguma.

-Ei, vai ter jogo do Santos hoje?

-Vai sim moça, contra o Atlético Paranaense. É hoje que a gente ganha pra ficar tranquilo. É vai ou raxa. Você é santista?

-Sou sim. Tô meio por fora dos jogos. Tá com chance de ser rebaixado, né?

-Vira essa boca pra lá. A gente ganha fácil deles. Por que você não vai?

-Ah, sei lá, acabei de sair do trabalho.

E a incerteza se torna passageira. O ponto que você pretendia descer passa, e o novo destino está traçado: estádio Urbano Caldeira, a querida Vila para os mais íntimos. O casal não é mais estranho a você, e aquele ponto em comum passa a definir o valor da amizade.

Chegando lá, a sorte é aliada: ingressos de graça às mulheres que entrarem antes das cinco da tarde. A fome bate, o corpo pede banho e descanso, mas nada mais importa, apenas ver o Peixe longe da zona de rebaixamento.

Dentro do estádio você acaba se separando do casal, mas logo se sente à vontade com toda aquela família. Estádio lotado, cantando em coro, te acolhendo. Você pede um celular emprestado a uma família, a “minha bateria acabou”, e o chefe do grupo se desprende sem medo do aparelho, pois está prestando atenção no lance que pode ser um...Gooooool! É gol do Santos, e em apenas dois minutos e trinta de jogo – segundo um adolescente ao seu lado. É impressionante como ele conseguiu contar o tempo, quando o juiz deu o sinal, ele e o amigo iniciaram uma reza interminável, com beijos em medalhas, gestos e sinais exóticos que só têm a afirmar o sincretismo religioso brasileiro.

A sensação desse momento, da bola entrar na rede, é indescritível. Quando o coro grita a palavra entalada no peito, a multidão se levanta, e você, no meio dela, se sente integrante daquela grandiosidade. Pode soltar toda a selvageria, o caos, o estresse dentro de você. Grita Santos, mas aquela palavra não significa mais um time, é emoção. É um momento anestésico, como o amor, que ocasiona aquele mal-estar na barriga, liberando um arrepio no corpo.

Na verdade, só o fato de você estar abraçando estranhos depois do gol, e se sentir sem graça depois que o instante passa, demonstra a carga de energias que um jogo de futebol acarreta. Os noventa minutos liberam a necessidade de comunicação real e espontânea guardada na semana metódica de trabalho, pois existe algo mais verdadeiro do que xingar o juiz e cantar o hino com um bando de desconhecidos?

O jogo acaba, quatro a zero para o time do coração, melhor do que o esperado. Quer dizer, já esperava, com o peixe é sempre assim, né. Talvez daqui a algumas horas, com o ânimo tranqüilo e mais racional, você seja mais realista. A torcida vai embora, esgotada, saindo do estádio numa dança desorganizada, que não iguala o sincronismo da ôla e do olé entoados no decorrer da partida.

Os homens vão se transformando, as camisas são tiradas, e o sinal que a semana burocrática vai começar desanima. Na volta para casa, o ônibus cheio irrita alguns rapazes que beberam umas a mais, e o senhor com as duas filhas não está com paciência para agüentar marmanjo, ainda mais depois de duas horas em pé na Vila Belmiro. Ninguém é mais íntimo, um só. Os indivíduos com fone de ouvido voltam a surgir, como também os olhares desviados e incomunicáveis. A segunda-feira já chegou.



sábado, 12 de abril de 2008

Sobre dinâmicas, estereótipos e julgamentos

Com a inteção de participar do projeto Oficinas Querô, lá fui eu ao Sesc de Santos no primeiro dos três dias do processo de seleção. Era mais uma no mar de gente que disputava uma das vagas do projeto. O Querô é voltado para jovens de regiões periféricas de Santos, São Vicente e Guarujá, e oferece uma oficina de cinema.


Eu não moro em região periférica, mas como o máximo que tenho no bolso são dez (centavos), achei que tinha uma chance. E como no site do Querô não havia nada que especificasse o perfil dos interessados, eu, esperançosamente, acreditei que não era mais necessário morar em área periférica.


Chegando lá, quando avistei toda aquela gente, desanimei. Não pelo grande número de pessoas, mas porque imaginava que a seleção seria de forma individual, por uma conversa, entrevista. Mas não, era claro que estava por vir uma dinâmica de grupo. Horas como boba alegre com outros bobos alegres, e todo mundo querendo se destacar da manada sem saber ao certo de que forma.


Logo de cara vi que a coisa não ia dar certo. Quando entrei na sala, que não possuia o número de cadeiras sufucientes para o de pessoas, me vi sentando no chão, com perninha de índio, e pior: com aquela calça alá insert coins. Eu poderia tentar arrumá-la que as moedinhas imaginárias continuariam a cair, pois agora faço parte da seleta associação dos semi-gordos.


Mas quando eu olho, um fio de esperança: uma única cadeira vaga, e que nenhum dos jovens ali, sentados no chão acarpetado, pareciam querer ocupar. Após descansar as pernas por alguns segundos, acho que três mais precisamente, uma garota ao meu lado, de longos cabelos lisos, óculos retangulares pretos, de pernas cruzadas que davam vista para o seu all star, desferiu palavras num ar superior pseudo-intelectual, o que não combinava com a sua face doce e angelical.


“Já tem uma pessoa aí, ela só foi resolver algo”. Eu ainda tentei dialogar, falando, “será que ela volta, bom, vou ficar por aqui enquanto ela não vem”. Mas a garota não pareceu dar muita bola, pois, no meio da minha frase já tinha virado o rosto para falar com outra pessoa. E após poucos minutos, mais precisamente dois, eu vi uma garota olhando diretamente para mim, quer dizer, ela na verdade estava flertando com a cadeira. E logo a pseudo-intelectual ao meu lado deu nova atenção, dizendo quase aflita que a dona do lugar havia chegado. De súbito resmunguei para mim mesma: “o que essa idiota pensa que tá fazendo, acha que sendo uma super guardadora de lugares justiceira vai conseguir uma vaga?. A dinâmica de grupo ainda não começou, não estão observando seus modos lisonjeiros não!”.


Lá fui eu sentar no chão, de cofre para fora. E comecei a olhar cada figura ao meu redor, pensando como foram parar ali. Haviam muitos que claramente não eram de área periférica, como eu, a pseudo-intelectual e uma outra garota de sorriso metálico. Ela vestia shorts, blusinha de marca, brincos de argola e aquela sandália-chinelo de Jesus Cristo que toda santista que se preze, e que passeia no Gonzaga, possui. Aliás, eram poucos (dentro de estereótipos) que tinham cara de que moravam em áreas carentes. Cheguei à duas conclusões: ou tentava parar de pensar de modo estereotipado, ou eu poderia mesmo acreditar que os critérios de seleção haviam mudado.


E começou a tal dinâmica. Cada um teve que se apresentar, falar nome, uma palavra que te defina e dizer o que esperava das Oficinas. Quando chegou o momento de cada um falar, eu ainda não sabia como me definir em uma palavra. O problema maior era que ela tinha que começar com a mesma inicial do meu nome, a letra m. A única coisa coerente que me vinha à cabeça era merda. Apesar de ter mais de 50 jovens naquela sala, a fila de apresentações já tinha começado, estava chegando na minha vez e a tal da merda não saía – da minha cabeça - de jeito nenhum.


Enquanto isso, as palavras clichês dos outros candidatos soavam com a maior naturalidade possível, de eu sou Jéssica e justa, à eu sou Débora doce e delicada. Existiam também os Otávios organizados, e os Silvios solidários, claro. Alguém com m disse que era metódico, mas além de ficar feio copiar a resposta dos outros, algo que não sou é metódica. Quando chegou na minha vez, a coisa mais estúpida veio em mente: mente. Mariana e mente. “Ahn? Como?”, me perguntou a coodenadora do projeto. “Mente”, eu disse, “mas não de mentir, mas de mente, pensar mesmo”. Ahan. Colou e muito, agora ela me escolhe, porque pensar é algo diferenciado que nenhum ser humano é capaz de fazer. O pior foi a piadinha de dizer que não me referia à ser mentirosa. Ninguém riu, a não ser alguns seres que não eram Silvios, mas realmente solidários.



E começaram as dinâmicas. Uma mais constrangedora que a outra. Eu tentava fingir gostar, estar integrada, mas aquilo não fazia nenhum sentido. A coisa se agravou quando todos tiveram que improvisar cenas a partir de uma palavra dita pela simpática e empolgada monitora. Apesar dos 60 jovens terem sido dividos em quatro grupos, ninguém chegava a um acordo. No meu caso, os quinze do grupo queriam falar ao mesmo tempo, chamar mais atenção. Ao invés de fazerem uma cena conversando, um gritava mais que o outro, e chegavam outros criando cenas paralelas, o que tornava a coisa totalmente desconexa. Quando vi, também entrei na gritaria. Ao final, a monitora repetia que todos não precisavam participar de todas as cenas, e que um tinha que deixar o outro falar para ser ouvido. Mas quem disse que adiantou?.


Apesar de todos quererem chamar atenção, havia um garoto, que parecia ter seus 16 anos, que se destacava naturalmente. Era o único jovem de camisa e calça sociais, gravata, sapatos e cinto combinando. Óculos preto quadrado, cabelos lisos, meticulosamente pentados para trás, brilhantes de gel. Mesmo não parecendo real, mas de um desenho, o garoto se comportava naturalmente, como se não existisse nada de diferente nele. Na brincadeira de criar cenas com uma palavra, não levantou a voz nenhuma vez, e criava histórias coerentes tentando não deixar que começassem os berreiros. Pelas suas idéias, notava-se o típico gosto por Senhor dos Anéis e filme mudo iraniano. Vaga garantida, pensei. Ele não tinha cara de rico, mas de quem conquista os objetivos com o próprio esforço.


Enquanto observava o garoto e sua tentativa de organizar os colegas, começei a ficar inquieta com a situação. Impaciente, resolvo fazer algum comentário com uma moça ao meu lado, pois observar aquilo era um tédio só. A garota, de primeira, parecia ter seus 19 anos, bonita, alta e com um olhar sério para o grupo que participava da dinâmica. Era negra e seus cabelos compridos eram entrançados. Quando puxei papo, não deu muita bola e respondeu séria com monossílabas. Outra com ar intelectual, que pensa ser cada um por sí, concluí.


Ao final das dinâmicas, perguntaram o que os participantes acharam. E as respostas idiotas seguiram – se bem que não sei o que seria uma boa resposta neste caso. “Foi ótima para fazer amigos”, “me soltei”, e por aí segue. Quer dizer, seguir não segue, porque os mais desinibidos que comentaram simplesmente repetiam o que o outro havia acabado de falar, mas tentavam parecer mais cultos. Do tipo, “do alto de minha sabedoria, foi bom para fazer amigos”. “Bom, mas além disso, é bom para realizar novas amizades”. “Não gente, indiscutivelmente, isso aumenta o meu círculo de conhecidos, e é bom conhecer novas pessoas, fazer amizade” emendou o mais audacioso.


Quando todos terminaram de fazer seus pertinentes comentários, a coordenadora deixou claro que a dinâmica não iria definir os escolhidos. Por isso, não importava se você foi mais tímido ou desinibido. Se imitou melhor uma samambaia ou gritou mais. A partir daquele dia, dinâmicas de grupo perderam mais sentido ainda para mim.


Depois de me desgatar fisicamente fazendo uma palmeira e uma motorista de ônibus, ainda tive que pegar uma sinopse, resumí-la e preencher uma lista das coisas que são necessárias para produzir um filme. Os organizadores da seleção explicaram superficialmente os itens da ficha, pois queriam testar a criatividade e o conhecimento dos candidatos. Mal começo a resumir a sinopse, a menina ao meu lado me pergunta como responder a ficha. Eu explico sem dar muita atenção, pois o tempo reservado a essa atividade é curta, e é a última do dia. Mas a garota não pára, e apesar de estar em meu momento egoísta, noto que ela está aflita.


Então olho para ela, e percebo que é a mesma moça que estava sentada ao meu lado e me respondido com monossílabas. Vejo sua ficha preenchida de forma vaga. Ela está tão perdida que me pergunta como se chamam aqueles lugares que vendem bebidas, vinhos. Ela não consegue nem formular a pergunta. Eu falo para ela, “supermercado, não?”. E percebo que não é só nervoso, é porque ela não sabe mesmo. Não tem 19 anos, como pensei, devia ter uns quinze e estava sem um dos dentes da frente. Não abria muito a boca, e colocava a mão na frente, parecendo querer esconder.


Me perguntou onde eu morava, e eu me senti sem graça e não respondi direito. Ela ainda ficou meio perdida, mas eu covardemente terminei minha atividade sem dar-lhe muita atenção. Quando eu estava para sair, uma das organizadoras chamou seis nomes (incluindo o meu) dos 60 presentes e mandou que estes não fossem embora. Haviam perdido um exercício que nós entregamos no começo do dia. Quando foram procurar novamente as folhas com os exercícios, encontraram quatro, e um garoto admitiu que não havia feito. A folha que estava faltando era de quem? A minha. Eu teria que refazer e mandar por e-mail. Paciência. Depois que ouvi a coordenadora dizer que universitários, mesmo com bolsa de estudos, não tinham chance, já desisti da vaga. Tudo bem que a coordenadora poderia ter falado isso desde o começo, e facilitado a vida de muitos ali, já que ela só foi confirmar a questão de morar em região periférica no final do dia. Mas vi que eu realmente já tive a minha oportunidade. Só espero que a minha vizinha de cadeira tenha conseguido a vaga.