segunda-feira, 2 de abril de 2012

Quando uma carioca apaixona-se por um mineiro avoado


Brasil, final da década de 50. A seleção canarinho acabara de ganhar seu primeiro título mundial depois de amargar nas Copas de 1950 e 54. Mas não era só a era de ouro do Brasil futebolístico; o popular Juscelino Kubitschek presidia o país rumo ao progresso e Brasília surgia pulsante como promessa de uma nação em pleno desenvolvimento.

         No entanto, enquanto o Rio de Janeiro ia perdendo o brilho como Distrito Federal, uma carioca de Engenho de Dentro pouco se importava com os rumos do país ou do futebol - sua preocupação maior era quando iria reencontrar o charmoso mineiro que era tão repleto de cabelos grisalhos quanto de ideias avoadas. Apesar de maior de idade e dona de si - já tinha seus 30 e poucos anos -, Diná se perguntava o que o pai acharia do misterioso mineiro. Seu José era homem sério e, como pai de família da época, gostava das coisas em ordem militaresca - o que não interferia em nada em sua predileção por uma cachacinha e o costume de se vestir de índio e mulher nas folias de Carnaval da Cidade Maravilhosa.

Enquanto isso, em um outro ponto da Cidade, Geraldo devaneava com vários projetos, esses impulsionados pela era em que vivia: dividia com o conterrâneo JK a ambição e, mesmo que figuradamente, o sangue cigano - não era homem de parada, gostava da rua, do novo. Desapegava-se caso fosse necessário; ninguém sabia de seu passado nem família nas Minas Gerais. E foi com este espírito empreendedor que migrou da terrinha do queijo com goiabada para o iminente Estado da Guanabara, começando a trabalhar como sapateiro, mas sonhando alçar novos voos.

 

JK e Didi, 1958


Porém, o desapego do mineiro, ao menos no aspecto emocional, durou pouco. Suas empolgações com a seleção canarinho, o cenário político nacional e projetos de vida pessoais foram relegadas a segundo plano assim que foi apresentado à irmã de Edinéia, sua conhecida, em um baile da noite carioca. Geraldo não conseguia parar de pensar na morena alta de sorriso cativante. Diná tinha olhos índios, ariscos, que contrapunham, de forma interessante, o falar doce e sereno.  

Assim sendo, a personalidade calma da carioca parecia balancear o furor característico do mineiro. Os dois se complementavam e não demorou para o namoro engatar. Diná, conhecida pelo temperamento calmo, talvez pensasse que Geraldo fosse mudar com o tempo, já que seus quarenta e poucos anos deveriam lhe trazer a maturidade de viver mais com os pés no chão. Diná enganara-se. Geraldo logo perceberia que o trabalho na sapataria denotava a necessidade do pisar seguro na terra, o que lhe desagradava; o mineiro queria tirar os pés do chão. E foi tirá-los literalmente - conseguiu um emprego de garçom no alto do Pão de Açúcar. Geraldo ia, pouco a pouco, alçando voos mais altos, sempre com sua amada na garupa.

E ainda no clima de positividade nacional, os dois se casaram na cidade que divorciava-se do papel de Distrito Federal. Geraldo, que não era besta nem nada, logo achou o Pão de Açúcar e o Rio pequenos demais para seus planos. Sempre nos passos do compadre de ciganagem Juscelino, sairia do Estado Fluminense em busca de uma terra prometida. Enquanto JK rumava sentido norte para Brasília, Geraldo vislumbrava um futuro promissor mais ao sul, no interior do Paraná.

        Casada e de mala e cuia, foi assim que Diná despediu-se do Rio e da família na Baixada Fluminense. Iria embarcar nos sonhos do marido como também no trem, em direção à cidadezinha tingui de Ibiporã. Largaria tudo para trás sem saber ao certo quando veria os seis irmãos novamente; afinal, transporte naquela época não era coisa fácil. Mas apesar da personalidade serena, Diná era forte, carregava o sangue paraíba materno nas veias. Em busca de uma nova vida - afinal, os projetos mirabolantes do marido agora eram os seus -, Diná espelhava-se em dona Baubina, a mãe que perdera há alguns anos.



Antiga estação de trem de Ibiporã, 1935


Baubina largou uma vida difícil no Nordeste e, ainda moça, migrou para o Rio de Janeiro. A nordestina, dona de longa cabeleira preta e lisa que não lhe escondia a ascendência indígena, veio sozinha a Cidade Maravilhosa. Trabalhou como doméstica antes de conhecer o carteiro José, com quem casaria e teria sete filhos - Diná era a segunda mais velha. A paraibana nunca mais voltaria à terra natal ou reencontraria a família - os filhos e o marido tornaram-se a sua vida.

E assim Diná também pensava - o marido e o filho que carregava no ventre eram agora sua vida. Com a experiência de garçom, Geraldo logo abriu um bar em Ibiporã. Aos trancos e barrancos, o mineiro foi tocando a vida e, quando menos esperou, um segundo e um terceiro filho pintaram. Apesar das dificuldades, Diná era feliz e realizada; a situação financeira lhe permitia viagens esporádicas à família na Baixada Fluminense.

No entanto, talvez inspirado pela paixão pelo futebol e a seleção canarinho ou pelos três filhos homens que já podiam lhe render um timinho, Geraldo mais uma vez trocou de profissão. Agora tiraria os pés do chão no balanço dos toques e dribles: iria virar técnico de futebol. E assim o fez, começando a treinar o Estrela do Norte, time ibiporãense que participava dos campeonatos regionais da época.



        Como mulher companheira que era, Diná embarcou, mais uma vez, na nova empreitada do marido. Geraldo construiu, ao fundo de sua casa, um imóvel que funcionava como concentração dos jogadores - lá eles tinham leitos e refeitório. Com o apoio da mulher e a parceria dos sócios, o mineiro tocava o time e despedia-se dos filhos e da mulher todos os finais de semana, viajando Estado afora para participar dos jogos e torneios paranaenses. As saídas, ao mesmo tempo que abrandavam o espírito desbravador de Geraldo, o deixavam saudoso da querida carioca e dos três bacuris. O cotidiano parecia bom, fácil - o homem encontrara a forma perfeita de se assentar na vida.

E tudo corria bem, se não fosse o tal do destino. Um dia, sem perceber, um mosquito barbeiro te pica e a doença, que poderia estar ali armazenada há anos ou semanas, te acomete. De repente, Diná já não tinha mais a mesma disposição, sentia febre, falta de apetite, mal-estar. Estava grávida. E com Chagas. Acamada, não conseguia ao menos dar atenção aos filhos, cuidá-los, amá-los. Enquanto os meninos ficavam na casa de comadres, Geraldo desdobrava-se para trabalhar e estar presente; para cuidar da mulher adoentada e ver os filhos. Sua vida ia esfumaçando-se na sua frente, sem solução.

Diná faleceu logo após dar vida a Sumirã. Ela era sua primeira menina. Também com Chagas, a bebê morreria cerca de um mês depois. E Geraldo? Já não era mais o mesmo. Perdera a mulher de sua vida; perdera Sumirã. Em visita à família da esposa no Rio, ficaria marcado na memória o dia em que chegou à casa de dona Lucy, sua cunhada, e, sem dizerem nada, abraçaram-se, sentaram-se e choraram a morte da esposa e irmã amada.



Únicas fotos existentes de Diná e Geraldo

        Geraldo definharia em poucos meses. A morte o levou em menos de um ano. Das lembranças dos filhos, a imagem do pai meio maluco, avoado. De como Geraldo os levava ao Rio de Janeiro para visitar os tios e primos e, nas paradas de trem, tinha a estranha mania de sair do vagão, esperar a maria-fumaça locomover-se e, a ponto de perder o trem e os filhos, correr e atirar-se na porta. Talvez quisesse buscar a emoção perdida, a adrenalina cigana do embarque imprevisto a uma nova paragem. Mas o mineiro não era besta nem nada. Ao fim da vida, admitiria para si mesmo que o plano mirabolante mais eficaz de sua vida foi o de conquistar a bela carioca Diná e torná-la sua esposa. Morreu do coração, dizem. Para alguns, morreu de dor no coração, mas no sentido figurado - morreu por amor a Diná.

E DEPOIS - Sem pais, os três filhos de Diná e Geraldo tomariam, de início, rumos diferentes. Apesar da vontade de se reencontrarem, a vida tem desses percalços e os irmãos só estariam juntos novamente ao final da década de 70. Seguiriam tocando a vida e dariam, ao longo dos anos, seis netos a Diná e Geraldo. E fariam com que a neta mais velha, Mariana, finalmente descobrisse a história dos avós de quem só possuia um retrato - e, infelizmente, foto não revela lembranças ou personalidade. Mariana sentiria saudades dos avós que não conheceu e, como forma de homenageá-los, escreveria estas tortas linhas do que poderia ter sido descoberto numa conversa informal, regada a pão e café, em algum canto do Brasil. Afinal, Mariana não é besta nem nada. Ela sabe que seu Geraldo era homem cigano e que vovó Diná iria atrás do vovô aonde quer que ele fosse.


Após anos sem se ver, os três filhos de Diná e Geraldo se encontram. 1978.




segunda-feira, 27 de junho de 2011

Um ano passa rápido.

      Eu quero andar descalça na rua. Sentir o chão quente dessa linda palavra que é paralelepípedo. Quero sair e sentir o vento úmido da maresia molhar meu rosto, suar e cheirar a chuva, sentir a terra molhada invadir até mesmo o paladar.
      Não devaneio com o paraíso. É a intensidade das imperfeições que me aguçam o desejo. Se lá sofro - e como choro, me desaponto, me vitimo! -, é um sofrer marcado pelo calor das paixões, pelo exagero, pela plenitude. Não quero a melancolia seca, tediosa, mas a radical, febril, teatral.
      Quero andar, olhar, me identificar, pertencer - ser eu. Quero errar naturalmente, sem consciência, sem titubear. Quero ser lida inteiramente, ser desmascarada - que os erros da linguagem não escondam os defeitos, as bizarrices da personalidade.
      Quero sentir a saudade habitual, gostosa, a saudade bizarra daquilo que acabo de ver, tocar; saudade do que está longe não faz sentido, não tem graça. Quero a minha localização geográfica, minha rota de fuga para a água; quero me guiar pela borda do mar.
      Quero voltar para admitir que tudo não passava de ilusão; que o cantar do sabiá e o céu cheio de estrelas não eram assim tão especiais, diferentes. Mas quero ter o direito de errar e pôr culpa na saudade - e viver dos clichês, de só poder julgar, se identificar por estar longe, por conhecer o outro. Depois de viver o exótico, quero desfrutar dos primores da mesmice - mais uma vez e sempre - e sempre insatisfeita, querendo mais, querendo vida.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

As mulheres de véu

            Sahar* é uma senhora muito simpática. Sorriso impecável no rosto, olhar doce e modesto. Chega de mansinho na sala e, todos os dias, projeta seu habitual "Hello, How are you?", sempre acompanhada da fiel bengala que dá suporte à dolorida perna. Ela poderia fazer uma cirurgia para amenizar o problema, mas o medo faz adiá-la. No entanto, um outro temor de Sahar, o de usar computadores, é o que me chama mais atenção.
            O problema é que nas aulas da faculdade praticamente todos os professores utilizam-se de portais na Internet para receberem trabalhos. Neste ambiente virtual Sahar se vê perdida e algumas de suas notas baixas, resultado da não participação nestes espaços, a levam a abandonar a aula. Ela me conta sua dificuldade com a informática muito tarde para que eu possa ajudá-la. E me faz uma confissão, no seu tom de voz mais cauteloso, sereno e humilde:
            - Eu tenho medo de usar, sabe. Depois de toda aquela coisa de muçulmanos e Internet, fiquei meio assim, não sei, não consigo.
            Sahar é da terra dos aiatolás e do polêmico presidente Mahmoud Ahmadinejad. Os poucos cabelos que aparecem escondidos sob seu véu mostram-se brancos como algodão. Sua experiência de vida e sua longa carreira como professora no Irã me fazem questionar o porquê Sahar alimenta um trauma, de certa forma, tão inocente, de talvez ser confundida com um terrorista cibernético por usar um computador e ser muçulmana. Tudo bem, ela é uma imigrante nos Estados Unidos, a terra do 11 de setembro. Mas a convivência com muçulmanos nos EUA tem me mostrado que eles são mais comuns aqui do que se imagina, construindo uma situação paradoxal na minha cabecinha.

 
            Certo dia, no caminho para a sala, começo a ouvir vozes masculinas cantando algo numa cadência que me parecia um lamento. No corredor à direita vejo uma cena diferente: acho que estou vendo o Aladin na minha frente. Um rapaz de cabelos lisos e pretos, pele morena e turbante está agachado num tapete persa voador. Ops, não voador. Ao seu lado, um rapaz de longos cabelos acompanha os rituais do amigo. Os dois estavam rezando (e bem alto) para Alá, virados para a Meca e nem aí com o que os outros estavam pensando.


            Após a cena, ao entrar na sala, percebo que a vietnamita ao meu lado me olha com uma cara surpresa, do tipo "O que era aquilo ali fora?". Fico pensando que aquilo não deveria a surpreender, porque o que não é difícil é encontrar muçulmanos na faculdade. Mulheres de véu são muitas, a começar pelas que estão na sala enquanto a vietnamita me olha com cara de espanto. Ao meu lado está a moça do Iêmen, do outro, a do Sudão e de Omã, mais à frente, Argélia e Irã, e no outro extremo da sala, a garota do Senegal. Com exceção da última, todas usam o véu.
            De início curiosa, após algumas semanas fui perdendo o olhar intrigado em relação às garotas de véu. A maioria utiliza a peça bem colada ao redor do limite do queixo, algumas até prendendo o pano sobre ele, quase próximo da boca. Minha colega do Iêmen tenta me explicar que para ela o objeto é nada mais que uma roupa qualquer. Para Aisha*, não usá-lo seria como estar sem calças.  


Faatin*, do Senegal, passaria desapercebida como uma de minhas lindas primas negras do Rio de Janeiro. Não seria difícil imaginá-la sambando no meio da Sapucaí de fantasia. Tem movimentos abertos, à vontade, veste-se à moda ocidental, lindos vestidos coloridos, blusas de alçinha, roupas coladas. É muçulmana. Pergunto o que acha do véu, porque não o usa: “Eu não uso agora, mas não tenho nenhum problema em relação a ele. Quando casar, se meu marido quiser, usarei”. Já Asalah*, do Sudão, utiliza o véu de forma bem leve no rosto, deixando a mostra seu pescoço, brincos e parte dos cabelos. Ela ajeita o adereço sem o menor pudor, retirando e recolocando-o no meio da aula, aos olhos de quem queira ver.
            É difícil entender as “diferenças” que o Islamismo tem em cada país. Mas como minhas colegas me respondem, é uma questão de cultura. A religião tem seus preceitos, leis, mas acaba integrando-se aos diversos elementos culturais. E não era para ser diferente, já que o Islã é praticado por cerca de 1,3 bilhão de pessoas, sendo a segunda maior religião do mundo – a gente vive tão dentro dessa face cristã que se esquece disso.
No caso de Asalah, imagino ela como um meio-termo ao ser mais “adaptável” ao ambiente cultural novo. Não mantenho muito contato físico com ela (o que é difícil com a minha latinidade), mas certo dia ela faz questão de me cumprimentar com as mãos – entendo logo o motivo -, lindamente pintadas de henna. No entanto, quando tento aproveitar a brecha e perguntar em que tipo de festa ela teria recebido a arte (e eu que achava que assistir O Clone nunca me ajudaria em nada), Asalah me dá uma resposta vazia e acaba o assunto por ali mesmo. Já tinha mostrado suas belas mãos e por ali estava bom.


Após pouco tempo, acreditando que existisse uma versão do católico não-praticante no Islamismo, perco a total cerimônia na frente de minha amiga Nazeeha*, que me parece, se enquadra nessa minha categoria inventada – a de muçulmana não-praticante. Nazeeha é um daqueles tipos que você nunca imaginaria conhecer: nascida no Turcomenistão, criada na Rússia mas estudante de escola turca – não a confunda com uma turca, ela é turcomena, por favor.
Me parece inevitável questioná-la se já viu o filme Borat, já que o Casaquistão fica ali, pertinho do Turcomenistão. Ela não tem nem ideia do que estou falando. Talvez minha piadinha soe para ela achar que Argentina e Brasil são a mesma coisa, e que macacos e favelas são o cenário dominante na nossa terrinha. Mas não consigo me conter. Devo ter desmanchado a boa impressão que criei, quando no primeiro dia ela me disse de onde era e eu respondi que já havia ouvido falar de seu país. Nazeeha ficou contente pois compartilha do estereótipo de que americano não gosta muito de geografia (eu, particularmente, acho que essa ideia é uma exceção à regra).


Nazeeha não usa véu e não fez cerimônia ao estreitar relações comigo. Somos amigas, não colegas. Nos vemos, nos telefonamos, vamos ao cinema, saímos para comer. Isso me bastaria para dizer que ela é "diferente". Mas tive a reconfirmação de minha idiotice. Nazeeha sempre ia no mesmo restaurante e comecei a achar que estava interessada no rapaz que lá trabalhava. Ela hesitava em me explicar o porquê de comer lá sempre. Após algumas semanas, ela me contou que seguia o Halal. Comecei a notar certas ideias, percepções diferentes nela, que talvez soariam meio "ortodoxas" para mim. Percebi que apesar de não usar o véu, minha amiga sempre vestia camisetas que vão até os cotovelos e calça. Fico pensando nas mil piadas indiscretas que lhe contei, de sua risada nervosa e seus tapinhas no meu braço após ouvi-las.
Penso em todos os muçulmanos que conheci e lembro-me de como o humor brasileiro não perdoa ninguém e de como, de certa forma, me sinto culpada em rir das piadas sobre homem-bomba.


Há alguns meses atrás o noticiário na TV americana se focava em uma coisa: a construção de uma mesquita e centro islâmico muito próximo do chamado ground zero, o local onde ocorreram os ataques às torres gêmeas. De um lado argumentava-se que aquilo seria inconveniente pois causaria um mal-estar às famílias das vítimas; afinal, aquela ferida ainda estava aberta. De outro, e que a maioria da imprensa apoiava, dizia-se que o protesto era um retrocesso da sociedade americana pois aqui a liberdade de expressão e religião sempre foi respeitada. A situação era delicada, mas seria preconceituoso julgar que a mesquita lembraria os terroristas, como se todo muçulmano fosse fanático e homem-bomba. O que os brasileiros fazem de piada sem culpa, americanos levam à sério – muito plausível diante dessa proximidade maior com a cultura islâmica.
            Acabo de descobrir que a belíssima muçulmana negra da minha sala é casada com um African-American judeu. Como entender a dinâmica dessa relação? Ela diz que tem problemas com a família dele, que tem dificuldade em aceitá-la. E isso não é diferente do que a escritora Hadia Mubarak diz em seu artigo, de como é difícil ser aceita como uma americana antes da visão de uma mulher de véu. Mubarak é, antes de mais nada, americana nascida em New Jersey. No entanto, sua religião ainda a coloca no estereótipo de estrangeira.


            Lembro-me da tarde de apresentações no College, e como o santur do estudante iraniano soou belíssimo, e como a apresentação dele acompanhado da percussão do colega baiano foi melhor ainda. Essa integração Irã-Brasil me faz lembrar de Sahar que, após ver-me abraçar uma pernambucana no último dia de aula, espantou-se, como todos na sala, com o acalorado jeito brasileiro. Meu engano. Ela não se espanta, identifica-se. Levanta-se, me abraça apertado, me beija e me deseja boa sorte. Aquilo me pareceu um adeus. Talvez a barreira que via em sua amizade não era a do distanciamento cultural, mas o simples fato de Sahar ser uma senhora com vida própria e ocupações. Talvez devesse tentar enxergar o Islã como uma religião, elemento cultural, e ver, mais além, a fortaleza, personalidade e segurança das mulheres muçulmanas que conheci. Nunca mais vi Sahar, a senhorinha de bengala e véu, mas sempre lembrarei de seu doce sorriso. 

               O cara que tocou com o baiano é o da extrema-esquerda!

* Achei de bom-tom trocar os nomes de minhas queridas colegas já que discrição é o que as definem.

sábado, 30 de outubro de 2010

Minha primeira vez

   Um sentimento de culpa dominava meu ser há algum tempo. Minha consciência me perseguia, principalmente nas horas em que eu havia acabado de ler alguma matéria ou artigo em blogs e portais de notícias por aí. Esse sentimento ruim, no entanto, foi finalmente sanado após eu ler o blog de Marcelo Tas, mais especificamente, o post intitulado "Indecisos, nulos e em cima do muro: estou com vocês."
  Estas seriam minhas primeiras eleições presidenciais. Confesso que estava empolgada em votar - aos 22 anos você começa a perceber o peso da idade, aquele sentimento de "descer a colina", então é bom ter esse frescor de novidade. No entanto, mesmo que eu votasse (terei que justificar), meu voto iria para o "lixo". Sim, sou uma pessoa indecisa, nula e em cima do muro - tudo ao mesmo tempo. E isso me incomodava, principalmente pelo fato de eu carregar o papel de "jornalista diplomada". 
  Eu poderia dizer, como desculpa esfarrapada, em belas palavras, que sou tão apegada à busca utópica pela isenção e imparcialidade jornalística que meu dever de cidadã teria sido afetado. Mas a verdade é que, como tal profissional, eu deveria estar a par de tudo, e assim, tirar minhas conclusões sobre os candidatos com facilidade. Mas as coisas não funcionam dessa maneira comigo: muitas vezes concluo que me falta certa personalidade, força de convicção, ou, para ficar mais bonito, sou guiada pela "teoria da relatividade". Quanto mais informação eu tenho, mais blogs (com toda sua carga parcial) e matérias leio, mais confusa eu fico. 


  Para minha surpresa, durante estas eleições meus colegas de sala realizaram uma discussão ferrenha por e-mail: apoiadores de Dilma X Serra. Foi surpresa porque ainda tenho a imagem daquela galera, geração crise-existencial-pós-moderna, e que, mesmo fazendo Jornalismo, só queria terminar logo os trabalhos e matérias e ir fazer qualquer outra coisa que não fosse ligada à obrigação de estar na faculdade - nisso me incluo, claro. Quando vi amigos tomando posições partidárias tão claramente, embasados em seus argumentos e muito bem informados, aquilo me chocou. Eu continuava no meu limbo, fiel representante dessa geração pessimista - e talvez acomodada.
  Antes do primeiro turno, comecei a questionar, via Messenger, em quem meus amigos votariam. Um deles me respondeu algo que define bem nossa sensação: "Eu juro que tento ter esperança que alguém vai de fato fazer algo para melhorar, mas o sistema não permite então acho que se dane em quem você vai votar, vai continuar a mesma merda de sempre". Algumas pessoas pensam assim, mas como ficou confirmado pela "Onda verde" do primeiro turno, a maioria dos meus amigos falaram que votariam na Marina. Sim, achamos linda a causa ambiental e temos a sensação de que os outros candidatos e seus partidos tem um discurso velho.
  E é aí que começou meu problema. Apesar de eu sempre simpatizar com Marina Silva, me ficou a impressão de que ela era apenas mais uma, igual, disfarçada numa nova roupagem. Entre Dilma e Serra eu não gostaria de votar, mesmo reconhecendo algum mérito em Lula e tendo uma inocente simpatia por Serra - como minha raíz de católica não-praticante, em casa sempre existiu um certo clima psdebista-não-praticante, contra um PT "bicho-papão" radical. Uma alternativa seria, talvez, o velhinho provocador, Plínio Arruda. Pensei nessa possibilidade e me surpreendi de ver outros amigos optando, com firmeza, no PSOL. 


  Mas então, novamente, fui facilmente influenciada por um outro amigo. Eu respeito muito suas opiniões e geralmente as compartilho. Para ele, Plínio teria usado um tom ameno e deixado de afirmar sua bandeira socialista. "Já está provado que se adequar ao sistema para chegar ao poder é fórmula perversa e fracassada. É um caminho sem volta. O PT tentou convencer seus militantes que estava mudando apenas o discurso em 2002. Mentira. Estava negando, na prática, o seu histórico de lutas, tudo aquilo que sempre defendeu", me disse.
  E assim, mais uma vez, o SISTEMA foi lembrado. Sempre nos incomodando, nos impedindo, nos podando. A alternativa? Meu amigo, para minha surpresa, diz apoiar o PSTU. "Independemente de questões mais profundas, como o fato de ser um partido revolucionário (o que causa muitas piadas), é um partido que comprova que "político não é tudo igual". O PSTU participa da campanha eleitoral para divulgar o seu programa, as suas diretrizes. Não está preocupado em obter voto a qualquer custo."
  Quando começo a simpatizar com as ideias, meu amigo me corta a esperança. "Mas, sinceramente, o partido não acredita que chegará ao poder dessa forma, através deste processo eleitoral. Não há ingenuidade neste sentido. O que ele acredita é que, havendo a revolução, havendo a mobilização de massa, seja daqui 50, 100, 1.000 anos, é preciso um partido socialista para dirigir este movimento". Pelo que entendo, alguns teóricos (bléh, odeio essa palavra) acreditam que nunca houve um país genuinamente socialista porque os que tentaram acabaram em Ditaduras. E assim penso: "Se já tentaram em tanto lugar, será que aqui no Brasil funcionaria? E quanto tempo isso vai levar?". Fico descrente, ou pior, com aquele sentimento individualista. Toda essa história me faz pensar que sistemas de governo, ou melhor, formas de viver como um coletivo e todas suas teorias estão muito longe de minha realidade e de meu singelo voto nas eleições de 2010 da República Federativa do Brasil.


  Ao final, em uma de minhas enquetes via Msn, eis que toda minha dúvida é apenas confirmada como um estado de espírito natural. No meio da conversa sobre quem fulana ou cicrana vai votar, uma amiga diz:
  - MAM Bahia.
  - Que isso, tá doida? Isso é partido, é?
  - Não, tô falando do Museu da Bahia. Tô fazendo TCC, só penso nisso, sei lá em quem vou votar.
  Nessa digressão, ela acaba começando a falar sobre suas pesquisas, sobre arte, e me tenta explicar algo em poucas palavras: "O contemporâneo, na verdade, é a mistura de muitas linguagens que a gente encontra no modernismo e no pós-modernismo, ou seja, aquela bagunça que ninguém entende muito bem". É, adoro sua explicação simples e direta e acabo achando que a arte contemporênea é uma ótima metáfora para minha cabeça contemporânea. Espero que no domingo vocês saibam o que fazer, porque eu...


sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A Rede Social, ou melhor, como enganar um brasileiro

     Como já tive a oportunidade de ver o filme The Social Network enquanto estou na terra do Tio Sam, resolvi postar minhas impressões enquanto ele ainda não entra em cartaz no Brasil. Para mim, como brasileira, o mais bacana em assistir A Rede Social é descobrir que o cara que "criou" o Facebook ao lado de Mark Zuckerberg é um conterrâneo tupiniquim. Apesar de ser brasileiro, que sempre leva a fama de Zé Carioca, "rei da malandragem", o paulistano Eduardo Saverin foi passado para trás por um gringo, e pior, seu melhor amigo, Zuckerberg.
     Saverin nasceu em Sampa e mudou-se para Miami ainda menino. De família rica, o cara foi novinho para Harvard, onde conheceu Mark Zuckerberg, que viria a se tornar seu melhor amigo - os dois tem a mesma origem judia. A parceria entre eles no projeto do Facebook teria ocorrido quando Zuckerberg resolveu criar a Rede Social (de início, para ser usada apenas entre os alunos de Harvard) e pediu ao amigo que entrasse com a grana. Saverin, mesmo ainda novato em Harvard, já sabia fazer negócios, investir em ações e tinha um dinheiro guardado.

Eduardo Saverin (Andrew Garfield ) e Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg)

     No filme, uma adaptação do livro Bilionários Acidentais, do jornalista Ben Mezrich (o mesmo autor de Quebrando a Banca), Mark Zuckerberg se mostra o típico nerd tentando alcançar "status social". O longa já começa nesse clima geek, pois enquanto os créditos de abertura rolam, a música Creep, do Radiohead, toca alta por um coral de crianças. Enquanto isso, aparecem imagens aleatórias de alguém fuçando no Facebook, olhando fotos, postando comentários, checando o status de relacionamento alheio... Mesmo estando longe de ser uma geek, não nego que dá uma emoçãozinha aquela música de dor-de-corno-depressivo rolando enquanto revela-se a realidade dos jovens que vivenciam esse mundo virtual.
     Ainda mais sendo brasileira, né. Para minha surpresa, nós lideramos muita pesquisa quando o assunto é Internet. Por exemplo, tirando as piadinhas como #boladepapelfacts, #pliniofacts e #dilmao, o Twitter e outras redes tem conquistado um papel importante no debate político. Até fevereiro, última pesquisa que achei googlezando, o português era a terceira língua mais usada no Twitter (e chegou a ser a segunda). Num balanço geral, o Brasil fica entre os primeiros, quando não lidera,  no uso de redes sociais, como no caso do Orkut.

Crédito: Mídias Sociais Blog

     Mas voltando ao filme, A Rede Social mostra como com uma "simples" ideia pode mudar o mundo, ou de quebra, fazer você rico. Bem, no caso, uma ideia roubada. Quer dizer, nem tanto. Mark Zuckerberg é um gênio. Isso já se mostra no primeiro diálogo do cara com a namorada. Ele, ao meu ponto de vista, é aquele típico pentelho-inteligente. O cara é um crânio, mas tão crânio que não consegue aceitar nada que seja "menos" que ele, ou melhor, que vá de encontro ao que ele acredita. Quando ele leva um pé-na-bunda da namorada, resolve roubar as fotos de todas as alunas de Harvard, que estão em um banco online, e fazer um jogo de "qual é a mais bonita". É, enquanto você, mero mortal, toma uma birita para esquecer, o rapaz invade o sistema de uma das mais prestigiadas faculdades do mundo.
    Com isso, o jogo online faz o maior sucesso - e também traz problemas, lógico. Mas depois da confusão, três estudantes de uma daquelas fraternidades-tipicamente-americanas convidam ele para bolar uma rede social que reunisse os alunos de Harvard. Zuckerberg concorda em entrar no projeto, mas, na verdade, começa a criar sua própria empresa com o amigo brasileiro (que não sabe da proposta que Mark recebeu) enquanto enrola os caras da fraternidade.


     O negócio começa a crescer, é expandido para outras instituições e finalmente foi aberto para geral, como você conhece hoje. Só para nos sentirmos importantes, os caras até chegam a mencionar o Brasil, mas num tom de brincadeira, quando resolvem transferir a empresa de Massachusetts para o Vale do Silício. "Porque não vamos para o Brasil, então?", Zuckerberg sugere a Saverin. O longa se concentra no processo de criação, no início do Facebook, e como Zuckerberg teria sido influenciado por Shawn Fanning, criador do Napster, a expandir seu projeto. Essa nova amizade acaba tomando o lugar de Saverin - que, de início, era diretor executivo da Rede Social. 
     Apesar de ter passado o brasileiro para trás, o filme me deu a impressão de que Zuckerberg não era um pilantra de caráter, apenas se portava como um - talvez por ser frustrado em certas áreas. Afinal, o trabalho todo foi dele, e mesmo que a sementinha da ideia do Facebook tenha sido plantada por outros, era certo que em alguma hora ele iria criar algo inovador. Isso se o longa tiver alguma relação com a verdade, porque Mark Zuckerberg, logicamente, não concorda com os fatos apresentados na trama - o livro Bilionários Acidentais apoia-se, em boa parte, em entrevistas com Saverin e outras pessoas envolvidas.
     Só realço a ótima interpretação de Jesse Eisenberg, que me fez até boiar em certas horas naquele ritmo nerdístico de falar (vida de brasileira sem legenda não é fácil, bixo). O filme é ótimo, tirando talvez não respeitar algo que deveria definir o longa: quem tem um estilo-virtual-de-ser não aguenta ficar mais de duas horas na poltrona - a não ser que o roteiro seja muito, maravilhosamente, fora do comum. E por último, mas não menos importante: porque raios, afinal, vivem colocando o Justin Timberlake para interpretar?  

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