domingo, 14 de março de 2010

A arte de ser boazuda

Certo dia, em meio a um passeio noturno, sentei-me com um grupo de amigas num banco. Enquanto observávamos o movimento dos jovens-baladeiros, em busca da tão necessária socialização, deu-se o seguinte comentário:

- Nossa, olha a calça daquela fulana. Coragem! (em tom de desprezo).

A fulana em questão, que atravessava a rua com uma cerveja na mão, estava vestida com uma calça à lá Zezé Di Camargo & Luciano, que define-se por um couro plástico, preto e reluzente, extremamente colado ao corpo, o que conferia, ao mesmo tempo, uma vulgaridade total, como se a moçoila estivesse nua (se olhada do ponto de vista moralista ou dor-de-cutuvelístico feminino), e sexy (se olhado pelos homens – grande descoberta!).

Enquanto algumas discutiam a indiscrição da moça, uma das amigas, querendo mostrar-se superior e sábia na conversa (ou talvez cínica?) fez a seguinte colocação:

- Não acho nada disso. Se eu fosse ela, usaria mesmo, se tivesse aquele corpo. Afinal, somos apenas seres com a função reprodutiva, e ela, como membro do sexo feminino, está desempenhando o seu papel, que é dos mais básicos para a sobrevivência da espécie, pois está à procura do macho mais forte e capacitado para a cópula.



O comentário gerou risadas, e foi interpretado por sarcasmo. Mas a dona da teoria seguiu em defesa ferrenha, e após algumas trocas de opinião, uma das amigas disse conhecer a boazuda da calça plástica, afirmando que ela seria “uma porta”. Mesmo assim, a cínica explicou que ela não precisava de inteligência, pois com sua beleza já possuia tudo o que é necessário para o manejo de seu bem-estar. “Se fosse ela eu agiria igual, sairia por aí, curtiria a vida e não faria mais nada. Pra quê me preocupar em explorar o intelecto? Não teria a menor função prática. Qualquer uma que nascer com um corpo daqueles, naturalmente, penderia a ocupar mais o dia com os conceitos estéticos da vida”. Ou seja – é melhor ser potranca do que intelectual.

A afirmativa bombástica é tomada como preconceituosa, por criar os esteriótipos de ‘boazuda burra’ e ‘nerds feia’, levando minhas amigas à afirmarem que eu (a cínica em questão, tive que me revelar) estaria vendo muito blockbuster teen na TV. Além de gerar duas perguntas: 1. É melhor ser bonitona do que inteligente? 2. Eu estava querendo dizer com aquela lenga-lenga que eu e minhas amigas somos barangas!?! Uma das amigas sentiu-se ofendida, mas entretida, enquanto outra acreditou que eu precisaria ir num psicólogo porque não teria autoestima.

Algumas semanas depois do causo em questão, fui relembrá-lo durante uma aula de História da Arte na faculdade, em que o conceito de arte foi definido pela junção de três coisas: o homem, a cultura/sociedade e o belo. Como afirmou o professor, a palavra belo geraria muitas significações, questões subjetivas, mas sem dúvidas, o Belo pode se tornar Feio com a moral. Ou seja, a calça era sexy dependendo de quem a via. Com minha mente desocupada, acabei chegando a conclusão que tudo não passava de arte. Já que, segundo um conceito posto na lousa, “A arte é a criação (algo novo no universo – a boazuda) de uma forma (união de duas ou mais partes em harmonia – a calça e a bunda da mulé) expressiva (algo que comunica/linguagem – necessidade de cópula-transa-reprodução)”.


Coincidentemente, dias após a aula, comecei a ler “O Retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde, e eis que nas primeiras páginas o personagem Lorde Henry diz:

- “Mas a beleza, a verdadeira beleza acaba onde começa a expressão intelectual. A intelectualidade é em si mesma um modo de exagero e destrói a harmonia de qualquer rosto. Desde o momento em que alguém se senta para pensar, torna-se todo nariz, ou todo fronte ou alguma outra coisa assim horrenda. Repare nos homens que triunfaram nas profissões intelectuais. Como são, de fato, hediondos! [...]”.

 Oscar Wilde

O diálogo fez-me lembrar de algumas pesquisas de revistas, com aqueles “perfis psicológicos”, em que o gordo-feio-quatro-olhos é inteligente e dedicado aos estudos por não ter opção de vida social ativa, e o belo é tão cheio de “atividades” que acaba por não se dedicar muito aos estudos. No prefácio do livro, fica claro a ideia da importância do culto ao belo, quando Oscar Wilde diz: “Os que encontram significações feias em coisas belas são corruptos sem ser encantadores. Isto é um defeito. Os que encontram belas significações em coisas belas são cultos. Para estes há esperança. Existem os eleitos, para os quais as coisas belas significam unicamente Beleza.”

Empolgada na leitura, começo a notar que todas as teorias do tal personagem Lorde Henry pregam o puro hedonismo, a satisfação dos desejos pessoais a qualquer custo, tudo permeado por uma dita “sinceridade” sem nenhuma moral limitadora.

Para resumir, em “O Retrato de Dorian Gray”, Lorde Henry é tido como sarcástico (e talvez perverso), mas de figura interessante, e acaba por influenciar o jovem e belo Dorian Gray a por em prática todas as suas teorias. Dorian começa a viver para o prazer, e enquanto seu quadro envelhece, ele permanece sempre gatão. Mas, por fim, a obra broxou minha pseudo-tese. Enquanto no livro todo a ideia do hedonismo e do culto à beleza se revela possível, o final (para mim) foi previsível e moralista.


Ao ler o prefácio e a pequena biografia do autor Oscar Wilde, eu acabo por concluir que todas as teses do Lorde Henry são as opiniões que o escritor deveria ter sobre esse culto ao belo e suas vontades mais profundas coibidas pela sociedade. Enquanto todos os personagens revelam fraquezas e incertezas, Lorde Henry é o único inabalável, impenetrável. Talvez ele seja o próprio Wilde, em uma máscara, já que é difícil falar mal de si mesmo.

Na versão cinematográfica de 2009, Henry é colocado com fraquezas, o que me agradou mais, se é para acabar pregando o moralismo. E por fim, eis que caio na já maldita história que me parece perseguir, a única crença e certeza que minha identidade pós-moderna-perdida me permite afirmar: tudo é relativo, depende do ponto de vista, gosto é que nem cú, cada um tem o seu, a potranca à lá sertanejo pode ser bonita para você, mas não para mim, Dorian Gray era um imbecil etc etc...

terça-feira, 2 de março de 2010

Twitter e o medo da solidão

Ao olhar as últimas notícias num portal na internet, deparo-me com a seguinte informação: segundo pesquisa de uma empresa inglesa, cerca de 40% dos textos publicados no serviço de microblog Twitter são inúteis, ou seja, são mensagens sem a menor função prática. Os usuários limitam-se a dizer a cada minuto o que estão fazendo, sendo importante divulgar que tipo de sanduíche comeram no almoço e o que tomaram no café da manhã.

Pode-se dizer das vantagens do serviço em algumas situações, como a auto-promoção, divulgação, ou a publicação de notícias, mas estas só abrangem, juntas, cerca de 10% das postagens. O serviço ganhou notoriedade durante as eleições no Irã, já que manifestantes utilizaram o Twitter para organizar protestos na capital do país, pois a ferramenta escapava da censura estatal. Entretanto, casos como esses são raros.

O que se vê é a necessidade das pessoas de viver num Big Brother. O problema é que elas não se baseiam no clássico livro de George Orwell, mas no reality show global que é apenas uma má cria da obra. Com o celular e a internet, o indivíduo fica conectado 24 horas por dia, na falsa ilusão de que nunca está sozinho, que sempre está exposto – palavra que deixa de ter uma conotação negativa.

O ser humano precisa viver em grupo para sobreviver, precisa produzir cultura, se comunicar, é isso o que o caracteriza dentro da rede viva que compõe a natureza, mas isso não significa que os indivíduos possam abdicar da introspecção. Ela é elemento importante para o amadurecimento das ideias e conceitos próprios, que seguirão como o bem mais importante que um homem pode ter: a segurança de si que leva ao respeito das diferenças do outro.

Ao observar as últimas twittadas de muitos famosos que proclamam odiar invasão de privacidade, o que se revela são milhares de mensagens sem qualquer conteúdo – ou o medo de ficar sozinho com os próprios pensamentos. Talvez o Twitter faça sucesso entre as celebridades por este motivo: quem não tem muito a dizer sente-se à vontade com os singelos 140 caracteres.

# Esse texto escrevi faz tempo, como artigo para o Entrevista, mas não foi publicado por falta de espaço. Aproveitando meu "período vegetativo", resolvi postar.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

TCCs e a hipocrisia intelectualista

Nos últimos meses do ensino médio, quando ainda não estava tão claro na minha cabeça o que eu faria da minha vida dali para frente, a piada de sempre era o meu incontestável destino caiçara. Como dizia às amigas, tornaria-me uma pescadora artesanal, casaria-me com um semelhante, barrigudo, de pés inchados e olhos vermelhos - de pinga matinal, e teria fihos escadinhas, com suas respectivas barrigas de verme e casquinhas de caca de nariz grudadas no braço.

- Josué, meu filho, joga a rede que hoje vai dar peixe! A lua tá cheia! A maré tá boa – essa seria a minha realidade na madrugada da pescaria diária.

O nome do meu filho, que sem tom de brincadeira, gostaria que fosse esse mesmo, sempre era tema de investidas preconceituosas, pois diziam que era um nome de “pedreiro” (desculpe-me a ofensa à classe). Sempre que o assunto na escola era vestibular, a frase acima, destinada a meu possível futuro filho, saía de minha boca. Certo dia, até o professor, ouvindo a brincadeira entre as colegas, sugeriu-me: “Ah Mariana, então porque você não faz engenharia da pesca?”. Ele falou a sério.

Tirando a falta de senso piadístico de meu antigo mestre, certo dia tive que resolver a questão: eu faria jornalismo. As amigas foram entrando também na dança das humanas, uma querendo a filosofia, outra ciências sociais, outra seguir Jeová aonde ele fosse...- a última encaixa-se em humanas?.

Bom, o fato é que cá estou, passaram-se quatro anos voando, e deparo-me com o monstro final: o temido Trabalho de Conclusão de Curso, ou para facilitar, TCC. Com minha falsa modéstia tenho a “brilhante” ideia de produzir uma monografia – mais teoria e pesquisa, tudo a cargo da pessoa mais preguiçosa e enrolona que já conheci: EU mesma. Leituras infindáveis de textos de outros, que servirão como referência, e para, entre uma citação e outra de terceiros, eu comprovar legitimamente que a minha tese é sólida e muito bem embasada.

Taí algo que eu não entendo. Quando você começa a ler estes teóricos, percebe que a essência do pensamento deles é pequena, porque eles também se basearam em terceiros – num círculo interminável que começou lá no Platão e foi parar na minha má e porca monografia sobre jornais e cultura de uma cidadezinha latino-americana sem dinheiro no bolso.



Em uma de minhas leituras, como em todas as outras que fiz no decorrer da faculdade, percebo o tom crítico, algumas vezes direto, outras velado, sobre o nosso modo de vida atual, consumista, mercadológico, desigual, neoliberal (os teóricos adoram essa palavra) etc etc e etcétera. Nessa hora lembro da amiga que faz filosofia, pois o autor começa a dizer mal sobre a área (pelo que entendi, já que esses textos acadêmicos adoram usar sinônimos da idade média para palavras fáceis). O cara fala da desvinculação do pensamento lógico da filosofia da realidade em que vivemos, de como ela interpreta e interroga as questões do mundo a partir de um método próprio em que está “presa”, achando-se dona da razão.

Eu começo a ficar perdida naquilo, pois para mim é tudo discurso (ou seria retórica?). No fim das contas, eu imagino todos os caras que escreveram os livros, e os citados nas obras, sentados em suas bibliotecas imensas, cheias de requinte, com um belo vinho a tira colo. Falando mal do mundo, desse sistema porco capitalista, e usufruindo de todas as suas vantagens(?). Uma das poucas citações que me fazem rir é sobre a antropologia. Um tal de Octavio Paz diz que “a antropologia resulta do remorso europeu a respeito dos ‘primitivos’”. Que a disciplina quer defender os índios, os negros e os primitivos da autodestruição dos europeus, por isso, a única salvação de que a antropologia é capaz é a de livrar os índios da própria antropologia – afinal, ela é um estudo criado por eles mesmos.

Eu largo o livro da mão quando o cara começa a dizer, citando outro, claro, sobre a busca dos círculos intelectuais de uma identidade latino-americana. Que o simples uso da palavra “latino” já fere os princípios, pois o adjetivo “remete para um derivado de uma matriz européia-ocidental”.

- PUTA QUE O PARIU, VAI TOMAR NO CÚ! Cara chato da porra, vai embaçar agora por causa de uma palavra! Então enfia o LATINO na #$&!# ! Diz então que somos CENTRO-SUL-AMERICANOS e chama os americanos de estadunidenses!

Minha avó, assustada, pergunta-me o que aconteceu. Eu começo a conversar com ela, e ela me diz que a teoria é importante, e não sei mais o quê. Eu adoro conversar sobre livros com ela, mas eu estou tão de saco cheio que não consigo engolir seus argumentos. Começo a pensar na minha primeira opção de vida a sério, largar tudo e virar pescadora, pelo menos faria algo totalmente utilitário, o comer para sobreviver, ao invés de ficar nessa lenga-lenga. “O que esses intelectuais precisam é de uma boa vassoura e um tanque para ocuparem suas cabeças, ou vão fazer um roçado e sobreviver do próprio alimento já que a sociedade de consumo é tão ruim assim!”. Na hora em que empolgo-me num debate filosófico-intelectualista com a minha vó, eis que surge o único ser pensante e verdadeiramente realista da casa, MAMÃE:

- O MARIANA, SUA VAGABUNDA, DESCULPA ATRAPALHAR A SUA CONVERSA INTELECTUAL COM A VÓ, MAS VEM ME AJUDAR EM ALGUMA COISA QUE PRESTA. JÁ QUE VOCÊ NÃO FAZ NADA O DIA INTEIRO, LIMPA ESSA GELADEIRA AQUI PRA MIM!

sábado, 22 de agosto de 2009

A Famigerada Cannabis Sativa

Durante os últimos anos, a maconha tem sido presença regular na minha vida. De toda a forma, mesmo sem ter experimentado, ela sempre teve o papel intrigador. Mas como disse a um amigo outro dia, quando ele me chamou para a tal da socialização, às vezes dou uma de Sandy, e ainda não conseguiria fazer algo ilegal. Mas o conceito que eu tinha da tal cannabis vem se transformando com o passar do tempo, em cada contato ou história que eu ouço sobre ela.

Nunca vi tantas matérias sobre o assunto, discussões e causos. Lembro-me das primeiras vezes que ouvi falar, desde as aulinhas do Proerd na escola até alguma história de uma amiga duma amiga, na oitava série. Eu, com a minha natural genética da atrasada, que sempre é a mais certinha e encanada do grupo, nunca teria mesmo conseguido experimentar, ao menos até hoje. É engraçado como a visão de algo vai mudando com o passar dos anos, como a que eu tinha sobre bebidas alcóolicas.

Recordo-me de como enquanto minhas amigas já iniciavam a adolescência bebendo vinho e misturando o “Tang com a Baikal”, eu ainda achava cerveja um mijo alcóolico com a única função de “fazer a social”, e me limitava às batidas. Hoje, posso dizer o quanto é prazeroso chamar aquela querida amiga pra tomar uma breja e trocar uma ideia. Mas não é só isso. Eu realmente passei a gostar da cevada, do sabor, e da sensação de bem-estar depois de alguns copos. Mas lembrar-me de como eu renegava algo que hoje é tão natural é engraçado.

Talvez a maconha seja mais polêmica – além do fato de ser ilegal – pela minha falta de aptidão física e psíquica para ter malandragem. Sempre admirei, e continua a admirar, o charme inegável de alguém que sabe tragar um cigarro, que solta a fumaça para o alto e dá aquele olhar de lado logo depois.

A minha primeira experiência com o cigarro foi na quinta série. Cinco meninas num banheiro de dois por dois, e aquele único e majestoso cigarro na mão da mais rebelde (a mesma que roubava os pirulitos da boca das que ela chamava de “patys frescas”). Ela, é claro, já se dizia expert no negócio, mas quando acendeu o fumo, deu umas engasgadas, o que gerou muitas risadas na roda, e logo protestos de silêncio, já que a inspetora poderia entrar no banheiro a qualquer hora. Enquanto o cigarro passava de mão em mão, eu lembrava-me de todos os ditados morais já ouvidos. E então, quando a garota ao lado passou o tabaco para mim, eu não consegui conter a adrenalina de estar fazendo algo totalmente novo. É claro, eu traguei, engoli a fumaça, e ela nunca mais voltou. De todas as garotas, mesmo que uma desse uma engasgada, tossisse, eu fui a única que não consegui liberar a fumaça para fora. E isso segue até hoje.


Mas é claro, o tal do baseado não é um simples cigarro. Outro dia assisti na tevê uma matéria sobre um traficante paraguaio que traz a maior parte da maconha comercializada no Brasil. Aí vem toda a questão das pobres-criancinhas-na-favela-que-vivem-no-meio-do-tráfico e se envolvem, em como eu estaria contribuindo para a morte de pessoas se utilizasse algo ilegal. Do outro lado, diz-se que a maconha não tem produção massiva em algum país, que as plantações já se espalharam localmente – fora os que plantam em casa por aí.



E diante de toda essa pressão midiática e social, já que sempre aparece alguém para te oferecer um tapinha, eu comecei a ter um gosto musical, sem saber, que me levava à maconha. Uma banda aqui outra ali, e de repente, quando comecei a prestar atenção nas letras, sempre havia menção de alguma weed, sensi, ganja, pot, herb, get stoned, get high, legalize e eu, intrigada com aquela repetição de palavras, fui descobrir, na minha pura inocência, no dicionário, o seu real e bombástico significado.

Mas já era tarde, eu amava as bandas, e não posso mentir que gostar delas fez que com que o meu conceito de “erva do capeta” passase a uma ideia de apenas ser algo para “te dar um barato”. Até porque, não conseguiria ser hipócrita de criticar alguém do meu lado enquanto ouço as músicas dos caras de fora que acham a melhor sensação usar a tal da sensimilla. E quem sou eu para dizer algo, se o cara fica apenas relaxado, enquanto eu, bêbada, sou capaz de encenar situações nada agradáveis para a minha consciência do dia seguinte.

O que não consigo entender é porque a maconha é criminalizada, se existe toda essa onda hippie desde os anos 60, se tanto metido a intelectual usa, se não existe nenhuma comprovação de que ela vicie ou cause algum dano grave como outras drogas ilegais. Talvez ainda faltem manifestações mais claras a favor, um enfrentamento maior de quem usa, como em outras situações de quebra de preconceitos na cultura ocidental. Quer dizer, às vezes vejo alguém comentando sobre maconha, mesmo que esteja trancado dentro de um quarto, mas a pessoa naturalmente abaixa a voz.

Depois de certo tempo, comecei a separar o mundo num AC - DC. Antes da Cannabis, Depois da Cannabis. “Será que fulano fuma?. Ah, esse deve fumar, sim. Esse não”. Ou “Fulano fumava, mas agora parou porque tá trabalhando e lá fazem testes de drogas”. Mas aí o conceito cai, até porque todo mundo sabe que estereótipo não existe, principalmente no caso da maconha. Porque TODO o mundo, sem biotipos ou roupagens, pode ser fumante, já ter fumado, ou simplesmente não lembrar que fumou porque estava bêbado. Se você olhar na rua, olhe bem para aquela garota produzida, porque ela pode fumar, ou até mesmo aquela velhinha sorridente, pode ser que ela fume com o neto.

Afinal, quem sou para falar algo daquele cara que fuma com a mãe, ou daquele amigo firmeza que conta sobre seus problemas com a cocaína, mas que hoje fuma seu baseado toda noite, na boa, para dormir, ou daquela garota que foi fazer um trabalho para a faculdade, e quando foi analisar um filme, uma vez sóbria, outra chapada, teve ideias que agradaram a professora mais quando tinha fumado um?

Chega um certo dia, um certo ponto, que os papéis se invertem. A última, e derradeira, é quando você vira e fala “Vocês vão ficar me discriminando só porque eu não fumo maconha?”. Só sei que olhei para o lado, e o cara gargalhava, um riso solto, leve, gostoso, que me contagiou, como toda risada. Eu ria, mesmo sem ter fumado. Mas ele ria melhor, pois tinha o maior motivo para aquela vocação. É, posso ser do grupo de não-fumantes, mas não sei o dia de amanhã. Enquanto acabo esse post, ouço minha música preferida do último disco do GLASS. O delicioso solo de guitarra antecede o inebriante refrão: “Who’s Got the Weeeeeeeed, I Got the Weeeeeeed”.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Ateu não-praticante

Lendo a Revista da Semana, me deparo com a seguinte capa: “Por que acreditar em Deus? - Os novos ateus se organizam, assumem posições radicais e crêem que um mundo sem religião é possível”. A matéria comenta uma campanha ateísta que está fazendo sucesso em Londres. Uma jornalista, sentindo-se ultrajada com slogans religiosos em ônibus, resolveu não dar a outra face (é claro) e revidou arrecadando uma quantia de 375 mil reais para também colocar propagandas, mas com a frase “ Provavelmente, Deus não existe. Agora, pare de se preocupar e curta a vida”.

Sempre tive dificuldades com essa história de religião. Já passei por diversas fases. Meu primeiro teste de fé aconteceu aos sete anos. Minha avó, portuguesa (= católica), e por tabela, minha mãe, também católica, propôs que eu e meu irmão frequentássemos a tal da catequese. A idéia não deu muito certo, pois assim que ficou claro que eu não poderia ir para a casa da minha avó, na praia, aos sábados, desisti imediatamente. Minha mãe, já nem tanto fervorosa, concordou.

Mais tarde, na adolescência, rezava um pai nosso aqui e uma ave maria ali, divida entre a própria crença e a vontade de acompanhar a minha vó em tudo o que ela fazia. No ensino médio, na hora do aperto, uma oração não fazia mal, e tirar a vassoura da bruxinha de biscuit presentada por uma amiga, e esperar o pedido ser realizado, também não custava nada.

Ao entrar para a faculdade, entrei naquela fase pseudo-intelectual, e tudo ficou confuso. A frase ridícula “Eu não acredito em Deus (observem o temor na caixa alta), talvez em uma força maior que rege o universo, na natureza, na visão holística (hum, que bonito!)”, era a minha justificativa em conversas. Hoje, com algumas responsabilidades a mais, sem aquele belo e fantasioso mundo azul que dá margem à fé e à crença no ser humano, tornei-me “realista”. Agora, a frase empregada é “acredito no poder de ação das pessoas, tudo é resultado do que fazemos ou deixamos de fazer”. E é aí que entra a minha nova fase: o chamado ateísmo não-praticante.

É difícil enquadrar-se neste segmento, apesar da maioria dos brasileiros, talvez sem saber, o praticam. Na hora do almoço, num dia fresco, descubro o resto de vinho, geladinho, na geladeira. Que tal tomá-lo agora, acompanhando da comida?. Afinal, os médicos dizem que um cálice diário faz bem à saúde. “Ah não, que coisa de bêbado. Olha aí, a garrafa não quer abrir. Vou pegar o pano de prato. Não tem jeito. Hum, isso é sinal”. Acreditem, eu consegui levar isso às questões religiosas.

O anjo e o diabinho em mim iniciam uma discussão filosófica totalmente inútil. (Meu berço católico estereotipa o anjo como crente, e o diabo, como ateu, é claro. Até por que ateus vão para o inferno, certo?)

- Larga a mão de ser idiota. Que sinal o quê. Abre logo essa garrafa e pára com essa neura e transtorno obesessivo compulsivo. Aliás, isso daí é superstição, você é uma cagona.

- Não é isso. Bom, mas se não tá abrindo, é melhor não tomar.

- Vai logo mulher, prova que você não possui crença nenhuma. O que você acha que pode acontecer ?

- Nada. Está bem, Deus não existe, destino não existe. Eu vou parar de ficar “O” temendo, se Deus quiser. Ops! (Juro que essa última expressão saiu dos meus lábios).

- Merda. Agora toma o vinho, vai. Depois dessa cagada de ateu não-praticante, é o mínimo que você pode fazer.

No dia seguinte, tenho um pesadelo com uma amiga que não falo há dois anos. Entro no msn, e converso com um conhecido, espírita, que segundo uma amiga, “não é profeta, apenas dá uns toques”. Ele começa com a frase: “Você está insatisfeita com algo?”. Para resumir a história, ele disse que eu tinha problemas não resolvidos com uma pessoa. “É família? Amigo?”. “Não é família, é alguém com que você não fala há uns dois anos”. “É uma amiga, né?”. “Essa mesmo”, ele responde.

Bem, eu nem perguntei se eu já estava imaginando uma pessoa específica na minha mente, mas tudo bem. Resolvo falar com ela, apesar de não saber quantos dados forneci ao garoto durante a conversa, para ele apenas apenas concordar afirmativamente, e eu me espantar. Posso ter sido levada a um caminho, dado brechas do tipo “ele é alto, cabelo hastafari, um olho azul e outro preto e tem uma cicatriz na cara?”, e a pessoa concordado. Mas após a conversa, resta a dúvida do que foi instigado e do que foi espontâneo.

Sempre observo conversas típicas brasileiras, realmente só devem acontecer aqui.

- Tô com umas zique-ziras.

- Toma uma banho de rosas, vou te ensinar o que aprendi lá na Umbanda.

- Eu ein.

- Que nada mulher, Candomblé é que não pode. Umbanda é espírita.

- Ah, tá. (Até hoje não entendi a diferença entre as duas).

- E essa medalhinha de Nossa Senhora? Você não disse que era ateu?

- A minha vó que me deu. Tenho que usar, tadinha dela. Fora que ela benzeu lá em Aparecida, não custa eu usar, né.

- Ah, tá. (Fim da segunda discussão).

(Saindo da missa)

- Ando com umas dores, e esses remédios não resolvem nada. Não sei mais o que faço, já rezei tanto.

- Vai lá no médico espírita, ele é tiro e queda.

- Mas se o padre souber ele não vai achar ruim?

- Que nada, espiritísmo é filosofia de vida, fazer o bem, fora que eu vou num centro kardecista, não são esses outros, não.

- Então vamos lá na quinta-feira ?

- Hum, quinta não dá. Já combinei de ir com a minha vizinha, a dona Tekiro, lá no Seicho-No-Ie.

- Ah, tá. (novamente).

Acredito que irei seguir com dúvidas pelo resto da vida, mas talvez me encontre em alguma religião, pois no fundo, apesar desse negócio de temer me incomodar, eu desejo ter fé para acalmar as questões da minha personalidade pós-moderna-perdida-totalmente. Só queria crer sem medo, aceditar mesmo, de forma totalmente natural. E acreditar no poder de ação das pessoas não é ter fé?. Só sei de uma coisa: os slogans da campanha ateísta são todos em caixa alta, GOD. Eles poderiam ter colocado a frase em caixa baixa obedecendo apenas as regras gramaticais, a primeira letra da frase em maiúscula. É respeito pelos religiosos ou é não dar margem ao tal temor?.