segunda-feira, 2 de abril de 2012

Quando uma carioca apaixona-se por um mineiro avoado


Brasil, final da década de 50. A seleção canarinho acabara de ganhar seu primeiro título mundial depois de amargar nas Copas de 1950 e 54. Mas não era só a era de ouro do Brasil futebolístico; o popular Juscelino Kubitschek presidia o país rumo ao progresso e Brasília surgia pulsante como promessa de uma nação em pleno desenvolvimento.

         No entanto, enquanto o Rio de Janeiro ia perdendo o brilho como Distrito Federal, uma carioca de Engenho de Dentro pouco se importava com os rumos do país ou do futebol - sua preocupação maior era quando iria reencontrar o charmoso mineiro que era tão repleto de cabelos grisalhos quanto de ideias avoadas. Apesar de maior de idade e dona de si - já tinha seus 30 e poucos anos -, Diná se perguntava o que o pai acharia do misterioso mineiro. Seu José era homem sério e, como pai de família da época, gostava das coisas em ordem militaresca - o que não interferia em nada em sua predileção por uma cachacinha e o costume de se vestir de índio e mulher nas folias de Carnaval da Cidade Maravilhosa.

Enquanto isso, em um outro ponto da Cidade, Geraldo devaneava com vários projetos, esses impulsionados pela era em que vivia: dividia com o conterrâneo JK a ambição e, mesmo que figuradamente, o sangue cigano - não era homem de parada, gostava da rua, do novo. Desapegava-se caso fosse necessário; ninguém sabia de seu passado nem família nas Minas Gerais. E foi com este espírito empreendedor que migrou da terrinha do queijo com goiabada para o iminente Estado da Guanabara, começando a trabalhar como sapateiro, mas sonhando alçar novos voos.

 

JK e Didi, 1958


Porém, o desapego do mineiro, ao menos no aspecto emocional, durou pouco. Suas empolgações com a seleção canarinho, o cenário político nacional e projetos de vida pessoais foram relegadas a segundo plano assim que foi apresentado à irmã de Edinéia, sua conhecida, em um baile da noite carioca. Geraldo não conseguia parar de pensar na morena alta de sorriso cativante. Diná tinha olhos índios, ariscos, que contrapunham, de forma interessante, o falar doce e sereno.  

Assim sendo, a personalidade calma da carioca parecia balancear o furor característico do mineiro. Os dois se complementavam e não demorou para o namoro engatar. Diná, conhecida pelo temperamento calmo, talvez pensasse que Geraldo fosse mudar com o tempo, já que seus quarenta e poucos anos deveriam lhe trazer a maturidade de viver mais com os pés no chão. Diná enganara-se. Geraldo logo perceberia que o trabalho na sapataria denotava a necessidade do pisar seguro na terra, o que lhe desagradava; o mineiro queria tirar os pés do chão. E foi tirá-los literalmente - conseguiu um emprego de garçom no alto do Pão de Açúcar. Geraldo ia, pouco a pouco, alçando voos mais altos, sempre com sua amada na garupa.

E ainda no clima de positividade nacional, os dois se casaram na cidade que divorciava-se do papel de Distrito Federal. Geraldo, que não era besta nem nada, logo achou o Pão de Açúcar e o Rio pequenos demais para seus planos. Sempre nos passos do compadre de ciganagem Juscelino, sairia do Estado Fluminense em busca de uma terra prometida. Enquanto JK rumava sentido norte para Brasília, Geraldo vislumbrava um futuro promissor mais ao sul, no interior do Paraná.

        Casada e de mala e cuia, foi assim que Diná despediu-se do Rio e da família na Baixada Fluminense. Iria embarcar nos sonhos do marido como também no trem, em direção à cidadezinha tingui de Ibiporã. Largaria tudo para trás sem saber ao certo quando veria os seis irmãos novamente; afinal, transporte naquela época não era coisa fácil. Mas apesar da personalidade serena, Diná era forte, carregava o sangue paraíba materno nas veias. Em busca de uma nova vida - afinal, os projetos mirabolantes do marido agora eram os seus -, Diná espelhava-se em dona Baubina, a mãe que perdera há alguns anos.



Antiga estação de trem de Ibiporã, 1935


Baubina largou uma vida difícil no Nordeste e, ainda moça, migrou para o Rio de Janeiro. A nordestina, dona de longa cabeleira preta e lisa que não lhe escondia a ascendência indígena, veio sozinha a Cidade Maravilhosa. Trabalhou como doméstica antes de conhecer o carteiro José, com quem casaria e teria sete filhos - Diná era a segunda mais velha. A paraibana nunca mais voltaria à terra natal ou reencontraria a família - os filhos e o marido tornaram-se a sua vida.

E assim Diná também pensava - o marido e o filho que carregava no ventre eram agora sua vida. Com a experiência de garçom, Geraldo logo abriu um bar em Ibiporã. Aos trancos e barrancos, o mineiro foi tocando a vida e, quando menos esperou, um segundo e um terceiro filho pintaram. Apesar das dificuldades, Diná era feliz e realizada; a situação financeira lhe permitia viagens esporádicas à família na Baixada Fluminense.

No entanto, talvez inspirado pela paixão pelo futebol e a seleção canarinho ou pelos três filhos homens que já podiam lhe render um timinho, Geraldo mais uma vez trocou de profissão. Agora tiraria os pés do chão no balanço dos toques e dribles: iria virar técnico de futebol. E assim o fez, começando a treinar o Estrela do Norte, time ibiporãense que participava dos campeonatos regionais da época.



        Como mulher companheira que era, Diná embarcou, mais uma vez, na nova empreitada do marido. Geraldo construiu, ao fundo de sua casa, um imóvel que funcionava como concentração dos jogadores - lá eles tinham leitos e refeitório. Com o apoio da mulher e a parceria dos sócios, o mineiro tocava o time e despedia-se dos filhos e da mulher todos os finais de semana, viajando Estado afora para participar dos jogos e torneios paranaenses. As saídas, ao mesmo tempo que abrandavam o espírito desbravador de Geraldo, o deixavam saudoso da querida carioca e dos três bacuris. O cotidiano parecia bom, fácil - o homem encontrara a forma perfeita de se assentar na vida.

E tudo corria bem, se não fosse o tal do destino. Um dia, sem perceber, um mosquito barbeiro te pica e a doença, que poderia estar ali armazenada há anos ou semanas, te acomete. De repente, Diná já não tinha mais a mesma disposição, sentia febre, falta de apetite, mal-estar. Estava grávida. E com Chagas. Acamada, não conseguia ao menos dar atenção aos filhos, cuidá-los, amá-los. Enquanto os meninos ficavam na casa de comadres, Geraldo desdobrava-se para trabalhar e estar presente; para cuidar da mulher adoentada e ver os filhos. Sua vida ia esfumaçando-se na sua frente, sem solução.

Diná faleceu logo após dar vida a Sumirã. Ela era sua primeira menina. Também com Chagas, a bebê morreria cerca de um mês depois. E Geraldo? Já não era mais o mesmo. Perdera a mulher de sua vida; perdera Sumirã. Em visita à família da esposa no Rio, ficaria marcado na memória o dia em que chegou à casa de dona Lucy, sua cunhada, e, sem dizerem nada, abraçaram-se, sentaram-se e choraram a morte da esposa e irmã amada.



Únicas fotos existentes de Diná e Geraldo

        Geraldo definharia em poucos meses. A morte o levou em menos de um ano. Das lembranças dos filhos, a imagem do pai meio maluco, avoado. De como Geraldo os levava ao Rio de Janeiro para visitar os tios e primos e, nas paradas de trem, tinha a estranha mania de sair do vagão, esperar a maria-fumaça locomover-se e, a ponto de perder o trem e os filhos, correr e atirar-se na porta. Talvez quisesse buscar a emoção perdida, a adrenalina cigana do embarque imprevisto a uma nova paragem. Mas o mineiro não era besta nem nada. Ao fim da vida, admitiria para si mesmo que o plano mirabolante mais eficaz de sua vida foi o de conquistar a bela carioca Diná e torná-la sua esposa. Morreu do coração, dizem. Para alguns, morreu de dor no coração, mas no sentido figurado - morreu por amor a Diná.

E DEPOIS - Sem pais, os três filhos de Diná e Geraldo tomariam, de início, rumos diferentes. Apesar da vontade de se reencontrarem, a vida tem desses percalços e os irmãos só estariam juntos novamente ao final da década de 70. Seguiriam tocando a vida e dariam, ao longo dos anos, seis netos a Diná e Geraldo. E fariam com que a neta mais velha, Mariana, finalmente descobrisse a história dos avós de quem só possuia um retrato - e, infelizmente, foto não revela lembranças ou personalidade. Mariana sentiria saudades dos avós que não conheceu e, como forma de homenageá-los, escreveria estas tortas linhas do que poderia ter sido descoberto numa conversa informal, regada a pão e café, em algum canto do Brasil. Afinal, Mariana não é besta nem nada. Ela sabe que seu Geraldo era homem cigano e que vovó Diná iria atrás do vovô aonde quer que ele fosse.


Após anos sem se ver, os três filhos de Diná e Geraldo se encontram. 1978.




segunda-feira, 27 de junho de 2011

Um ano passa rápido.

      Eu quero andar descalça na rua. Sentir o chão quente dessa linda palavra que é paralelepípedo. Quero sair e sentir o vento úmido da maresia molhar meu rosto, suar e cheirar a chuva, sentir a terra molhada invadir até mesmo o paladar.
      Não devaneio com o paraíso. É a intensidade das imperfeições que me aguçam o desejo. Se lá sofro - e como choro, me desaponto, me vitimo! -, é um sofrer marcado pelo calor das paixões, pelo exagero, pela plenitude. Não quero a melancolia seca, tediosa, mas a radical, febril, teatral.
      Quero andar, olhar, me identificar, pertencer - ser eu. Quero errar naturalmente, sem consciência, sem titubear. Quero ser lida inteiramente, ser desmascarada - que os erros da linguagem não escondam os defeitos, as bizarrices da personalidade.
      Quero sentir a saudade habitual, gostosa, a saudade bizarra daquilo que acabo de ver, tocar; saudade do que está longe não faz sentido, não tem graça. Quero a minha localização geográfica, minha rota de fuga para a água; quero me guiar pela borda do mar.
      Quero voltar para admitir que tudo não passava de ilusão; que o cantar do sabiá e o céu cheio de estrelas não eram assim tão especiais, diferentes. Mas quero ter o direito de errar e pôr culpa na saudade - e viver dos clichês, de só poder julgar, se identificar por estar longe, por conhecer o outro. Depois de viver o exótico, quero desfrutar dos primores da mesmice - mais uma vez e sempre - e sempre insatisfeita, querendo mais, querendo vida.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

As mulheres de véu

            Sahar* é uma senhora muito simpática. Sorriso impecável no rosto, olhar doce e modesto. Chega de mansinho na sala e, todos os dias, projeta seu habitual "Hello, How are you?", sempre acompanhada da fiel bengala que dá suporte à dolorida perna. Ela poderia fazer uma cirurgia para amenizar o problema, mas o medo faz adiá-la. No entanto, um outro temor de Sahar, o de usar computadores, é o que me chama mais atenção.
            O problema é que nas aulas da faculdade praticamente todos os professores utilizam-se de portais na Internet para receberem trabalhos. Neste ambiente virtual Sahar se vê perdida e algumas de suas notas baixas, resultado da não participação nestes espaços, a levam a abandonar a aula. Ela me conta sua dificuldade com a informática muito tarde para que eu possa ajudá-la. E me faz uma confissão, no seu tom de voz mais cauteloso, sereno e humilde:
            - Eu tenho medo de usar, sabe. Depois de toda aquela coisa de muçulmanos e Internet, fiquei meio assim, não sei, não consigo.
            Sahar é da terra dos aiatolás e do polêmico presidente Mahmoud Ahmadinejad. Os poucos cabelos que aparecem escondidos sob seu véu mostram-se brancos como algodão. Sua experiência de vida e sua longa carreira como professora no Irã me fazem questionar o porquê Sahar alimenta um trauma, de certa forma, tão inocente, de talvez ser confundida com um terrorista cibernético por usar um computador e ser muçulmana. Tudo bem, ela é uma imigrante nos Estados Unidos, a terra do 11 de setembro. Mas a convivência com muçulmanos nos EUA tem me mostrado que eles são mais comuns aqui do que se imagina, construindo uma situação paradoxal na minha cabecinha.

 
            Certo dia, no caminho para a sala, começo a ouvir vozes masculinas cantando algo numa cadência que me parecia um lamento. No corredor à direita vejo uma cena diferente: acho que estou vendo o Aladin na minha frente. Um rapaz de cabelos lisos e pretos, pele morena e turbante está agachado num tapete persa voador. Ops, não voador. Ao seu lado, um rapaz de longos cabelos acompanha os rituais do amigo. Os dois estavam rezando (e bem alto) para Alá, virados para a Meca e nem aí com o que os outros estavam pensando.


            Após a cena, ao entrar na sala, percebo que a vietnamita ao meu lado me olha com uma cara surpresa, do tipo "O que era aquilo ali fora?". Fico pensando que aquilo não deveria a surpreender, porque o que não é difícil é encontrar muçulmanos na faculdade. Mulheres de véu são muitas, a começar pelas que estão na sala enquanto a vietnamita me olha com cara de espanto. Ao meu lado está a moça do Iêmen, do outro, a do Sudão e de Omã, mais à frente, Argélia e Irã, e no outro extremo da sala, a garota do Senegal. Com exceção da última, todas usam o véu.
            De início curiosa, após algumas semanas fui perdendo o olhar intrigado em relação às garotas de véu. A maioria utiliza a peça bem colada ao redor do limite do queixo, algumas até prendendo o pano sobre ele, quase próximo da boca. Minha colega do Iêmen tenta me explicar que para ela o objeto é nada mais que uma roupa qualquer. Para Aisha*, não usá-lo seria como estar sem calças.  


Faatin*, do Senegal, passaria desapercebida como uma de minhas lindas primas negras do Rio de Janeiro. Não seria difícil imaginá-la sambando no meio da Sapucaí de fantasia. Tem movimentos abertos, à vontade, veste-se à moda ocidental, lindos vestidos coloridos, blusas de alçinha, roupas coladas. É muçulmana. Pergunto o que acha do véu, porque não o usa: “Eu não uso agora, mas não tenho nenhum problema em relação a ele. Quando casar, se meu marido quiser, usarei”. Já Asalah*, do Sudão, utiliza o véu de forma bem leve no rosto, deixando a mostra seu pescoço, brincos e parte dos cabelos. Ela ajeita o adereço sem o menor pudor, retirando e recolocando-o no meio da aula, aos olhos de quem queira ver.
            É difícil entender as “diferenças” que o Islamismo tem em cada país. Mas como minhas colegas me respondem, é uma questão de cultura. A religião tem seus preceitos, leis, mas acaba integrando-se aos diversos elementos culturais. E não era para ser diferente, já que o Islã é praticado por cerca de 1,3 bilhão de pessoas, sendo a segunda maior religião do mundo – a gente vive tão dentro dessa face cristã que se esquece disso.
No caso de Asalah, imagino ela como um meio-termo ao ser mais “adaptável” ao ambiente cultural novo. Não mantenho muito contato físico com ela (o que é difícil com a minha latinidade), mas certo dia ela faz questão de me cumprimentar com as mãos – entendo logo o motivo -, lindamente pintadas de henna. No entanto, quando tento aproveitar a brecha e perguntar em que tipo de festa ela teria recebido a arte (e eu que achava que assistir O Clone nunca me ajudaria em nada), Asalah me dá uma resposta vazia e acaba o assunto por ali mesmo. Já tinha mostrado suas belas mãos e por ali estava bom.


Após pouco tempo, acreditando que existisse uma versão do católico não-praticante no Islamismo, perco a total cerimônia na frente de minha amiga Nazeeha*, que me parece, se enquadra nessa minha categoria inventada – a de muçulmana não-praticante. Nazeeha é um daqueles tipos que você nunca imaginaria conhecer: nascida no Turcomenistão, criada na Rússia mas estudante de escola turca – não a confunda com uma turca, ela é turcomena, por favor.
Me parece inevitável questioná-la se já viu o filme Borat, já que o Casaquistão fica ali, pertinho do Turcomenistão. Ela não tem nem ideia do que estou falando. Talvez minha piadinha soe para ela achar que Argentina e Brasil são a mesma coisa, e que macacos e favelas são o cenário dominante na nossa terrinha. Mas não consigo me conter. Devo ter desmanchado a boa impressão que criei, quando no primeiro dia ela me disse de onde era e eu respondi que já havia ouvido falar de seu país. Nazeeha ficou contente pois compartilha do estereótipo de que americano não gosta muito de geografia (eu, particularmente, acho que essa ideia é uma exceção à regra).


Nazeeha não usa véu e não fez cerimônia ao estreitar relações comigo. Somos amigas, não colegas. Nos vemos, nos telefonamos, vamos ao cinema, saímos para comer. Isso me bastaria para dizer que ela é "diferente". Mas tive a reconfirmação de minha idiotice. Nazeeha sempre ia no mesmo restaurante e comecei a achar que estava interessada no rapaz que lá trabalhava. Ela hesitava em me explicar o porquê de comer lá sempre. Após algumas semanas, ela me contou que seguia o Halal. Comecei a notar certas ideias, percepções diferentes nela, que talvez soariam meio "ortodoxas" para mim. Percebi que apesar de não usar o véu, minha amiga sempre vestia camisetas que vão até os cotovelos e calça. Fico pensando nas mil piadas indiscretas que lhe contei, de sua risada nervosa e seus tapinhas no meu braço após ouvi-las.
Penso em todos os muçulmanos que conheci e lembro-me de como o humor brasileiro não perdoa ninguém e de como, de certa forma, me sinto culpada em rir das piadas sobre homem-bomba.


Há alguns meses atrás o noticiário na TV americana se focava em uma coisa: a construção de uma mesquita e centro islâmico muito próximo do chamado ground zero, o local onde ocorreram os ataques às torres gêmeas. De um lado argumentava-se que aquilo seria inconveniente pois causaria um mal-estar às famílias das vítimas; afinal, aquela ferida ainda estava aberta. De outro, e que a maioria da imprensa apoiava, dizia-se que o protesto era um retrocesso da sociedade americana pois aqui a liberdade de expressão e religião sempre foi respeitada. A situação era delicada, mas seria preconceituoso julgar que a mesquita lembraria os terroristas, como se todo muçulmano fosse fanático e homem-bomba. O que os brasileiros fazem de piada sem culpa, americanos levam à sério – muito plausível diante dessa proximidade maior com a cultura islâmica.
            Acabo de descobrir que a belíssima muçulmana negra da minha sala é casada com um African-American judeu. Como entender a dinâmica dessa relação? Ela diz que tem problemas com a família dele, que tem dificuldade em aceitá-la. E isso não é diferente do que a escritora Hadia Mubarak diz em seu artigo, de como é difícil ser aceita como uma americana antes da visão de uma mulher de véu. Mubarak é, antes de mais nada, americana nascida em New Jersey. No entanto, sua religião ainda a coloca no estereótipo de estrangeira.


            Lembro-me da tarde de apresentações no College, e como o santur do estudante iraniano soou belíssimo, e como a apresentação dele acompanhado da percussão do colega baiano foi melhor ainda. Essa integração Irã-Brasil me faz lembrar de Sahar que, após ver-me abraçar uma pernambucana no último dia de aula, espantou-se, como todos na sala, com o acalorado jeito brasileiro. Meu engano. Ela não se espanta, identifica-se. Levanta-se, me abraça apertado, me beija e me deseja boa sorte. Aquilo me pareceu um adeus. Talvez a barreira que via em sua amizade não era a do distanciamento cultural, mas o simples fato de Sahar ser uma senhora com vida própria e ocupações. Talvez devesse tentar enxergar o Islã como uma religião, elemento cultural, e ver, mais além, a fortaleza, personalidade e segurança das mulheres muçulmanas que conheci. Nunca mais vi Sahar, a senhorinha de bengala e véu, mas sempre lembrarei de seu doce sorriso. 

               O cara que tocou com o baiano é o da extrema-esquerda!

* Achei de bom-tom trocar os nomes de minhas queridas colegas já que discrição é o que as definem.

sábado, 30 de outubro de 2010

Minha primeira vez

   Um sentimento de culpa dominava meu ser há algum tempo. Minha consciência me perseguia, principalmente nas horas em que eu havia acabado de ler alguma matéria ou artigo em blogs e portais de notícias por aí. Esse sentimento ruim, no entanto, foi finalmente sanado após eu ler o blog de Marcelo Tas, mais especificamente, o post intitulado "Indecisos, nulos e em cima do muro: estou com vocês."
  Estas seriam minhas primeiras eleições presidenciais. Confesso que estava empolgada em votar - aos 22 anos você começa a perceber o peso da idade, aquele sentimento de "descer a colina", então é bom ter esse frescor de novidade. No entanto, mesmo que eu votasse (terei que justificar), meu voto iria para o "lixo". Sim, sou uma pessoa indecisa, nula e em cima do muro - tudo ao mesmo tempo. E isso me incomodava, principalmente pelo fato de eu carregar o papel de "jornalista diplomada". 
  Eu poderia dizer, como desculpa esfarrapada, em belas palavras, que sou tão apegada à busca utópica pela isenção e imparcialidade jornalística que meu dever de cidadã teria sido afetado. Mas a verdade é que, como tal profissional, eu deveria estar a par de tudo, e assim, tirar minhas conclusões sobre os candidatos com facilidade. Mas as coisas não funcionam dessa maneira comigo: muitas vezes concluo que me falta certa personalidade, força de convicção, ou, para ficar mais bonito, sou guiada pela "teoria da relatividade". Quanto mais informação eu tenho, mais blogs (com toda sua carga parcial) e matérias leio, mais confusa eu fico. 


  Para minha surpresa, durante estas eleições meus colegas de sala realizaram uma discussão ferrenha por e-mail: apoiadores de Dilma X Serra. Foi surpresa porque ainda tenho a imagem daquela galera, geração crise-existencial-pós-moderna, e que, mesmo fazendo Jornalismo, só queria terminar logo os trabalhos e matérias e ir fazer qualquer outra coisa que não fosse ligada à obrigação de estar na faculdade - nisso me incluo, claro. Quando vi amigos tomando posições partidárias tão claramente, embasados em seus argumentos e muito bem informados, aquilo me chocou. Eu continuava no meu limbo, fiel representante dessa geração pessimista - e talvez acomodada.
  Antes do primeiro turno, comecei a questionar, via Messenger, em quem meus amigos votariam. Um deles me respondeu algo que define bem nossa sensação: "Eu juro que tento ter esperança que alguém vai de fato fazer algo para melhorar, mas o sistema não permite então acho que se dane em quem você vai votar, vai continuar a mesma merda de sempre". Algumas pessoas pensam assim, mas como ficou confirmado pela "Onda verde" do primeiro turno, a maioria dos meus amigos falaram que votariam na Marina. Sim, achamos linda a causa ambiental e temos a sensação de que os outros candidatos e seus partidos tem um discurso velho.
  E é aí que começou meu problema. Apesar de eu sempre simpatizar com Marina Silva, me ficou a impressão de que ela era apenas mais uma, igual, disfarçada numa nova roupagem. Entre Dilma e Serra eu não gostaria de votar, mesmo reconhecendo algum mérito em Lula e tendo uma inocente simpatia por Serra - como minha raíz de católica não-praticante, em casa sempre existiu um certo clima psdebista-não-praticante, contra um PT "bicho-papão" radical. Uma alternativa seria, talvez, o velhinho provocador, Plínio Arruda. Pensei nessa possibilidade e me surpreendi de ver outros amigos optando, com firmeza, no PSOL. 


  Mas então, novamente, fui facilmente influenciada por um outro amigo. Eu respeito muito suas opiniões e geralmente as compartilho. Para ele, Plínio teria usado um tom ameno e deixado de afirmar sua bandeira socialista. "Já está provado que se adequar ao sistema para chegar ao poder é fórmula perversa e fracassada. É um caminho sem volta. O PT tentou convencer seus militantes que estava mudando apenas o discurso em 2002. Mentira. Estava negando, na prática, o seu histórico de lutas, tudo aquilo que sempre defendeu", me disse.
  E assim, mais uma vez, o SISTEMA foi lembrado. Sempre nos incomodando, nos impedindo, nos podando. A alternativa? Meu amigo, para minha surpresa, diz apoiar o PSTU. "Independemente de questões mais profundas, como o fato de ser um partido revolucionário (o que causa muitas piadas), é um partido que comprova que "político não é tudo igual". O PSTU participa da campanha eleitoral para divulgar o seu programa, as suas diretrizes. Não está preocupado em obter voto a qualquer custo."
  Quando começo a simpatizar com as ideias, meu amigo me corta a esperança. "Mas, sinceramente, o partido não acredita que chegará ao poder dessa forma, através deste processo eleitoral. Não há ingenuidade neste sentido. O que ele acredita é que, havendo a revolução, havendo a mobilização de massa, seja daqui 50, 100, 1.000 anos, é preciso um partido socialista para dirigir este movimento". Pelo que entendo, alguns teóricos (bléh, odeio essa palavra) acreditam que nunca houve um país genuinamente socialista porque os que tentaram acabaram em Ditaduras. E assim penso: "Se já tentaram em tanto lugar, será que aqui no Brasil funcionaria? E quanto tempo isso vai levar?". Fico descrente, ou pior, com aquele sentimento individualista. Toda essa história me faz pensar que sistemas de governo, ou melhor, formas de viver como um coletivo e todas suas teorias estão muito longe de minha realidade e de meu singelo voto nas eleições de 2010 da República Federativa do Brasil.


  Ao final, em uma de minhas enquetes via Msn, eis que toda minha dúvida é apenas confirmada como um estado de espírito natural. No meio da conversa sobre quem fulana ou cicrana vai votar, uma amiga diz:
  - MAM Bahia.
  - Que isso, tá doida? Isso é partido, é?
  - Não, tô falando do Museu da Bahia. Tô fazendo TCC, só penso nisso, sei lá em quem vou votar.
  Nessa digressão, ela acaba começando a falar sobre suas pesquisas, sobre arte, e me tenta explicar algo em poucas palavras: "O contemporâneo, na verdade, é a mistura de muitas linguagens que a gente encontra no modernismo e no pós-modernismo, ou seja, aquela bagunça que ninguém entende muito bem". É, adoro sua explicação simples e direta e acabo achando que a arte contemporênea é uma ótima metáfora para minha cabeça contemporânea. Espero que no domingo vocês saibam o que fazer, porque eu...


sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A Rede Social, ou melhor, como enganar um brasileiro

     Como já tive a oportunidade de ver o filme The Social Network enquanto estou na terra do Tio Sam, resolvi postar minhas impressões enquanto ele ainda não entra em cartaz no Brasil. Para mim, como brasileira, o mais bacana em assistir A Rede Social é descobrir que o cara que "criou" o Facebook ao lado de Mark Zuckerberg é um conterrâneo tupiniquim. Apesar de ser brasileiro, que sempre leva a fama de Zé Carioca, "rei da malandragem", o paulistano Eduardo Saverin foi passado para trás por um gringo, e pior, seu melhor amigo, Zuckerberg.
     Saverin nasceu em Sampa e mudou-se para Miami ainda menino. De família rica, o cara foi novinho para Harvard, onde conheceu Mark Zuckerberg, que viria a se tornar seu melhor amigo - os dois tem a mesma origem judia. A parceria entre eles no projeto do Facebook teria ocorrido quando Zuckerberg resolveu criar a Rede Social (de início, para ser usada apenas entre os alunos de Harvard) e pediu ao amigo que entrasse com a grana. Saverin, mesmo ainda novato em Harvard, já sabia fazer negócios, investir em ações e tinha um dinheiro guardado.

Eduardo Saverin (Andrew Garfield ) e Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg)

     No filme, uma adaptação do livro Bilionários Acidentais, do jornalista Ben Mezrich (o mesmo autor de Quebrando a Banca), Mark Zuckerberg se mostra o típico nerd tentando alcançar "status social". O longa já começa nesse clima geek, pois enquanto os créditos de abertura rolam, a música Creep, do Radiohead, toca alta por um coral de crianças. Enquanto isso, aparecem imagens aleatórias de alguém fuçando no Facebook, olhando fotos, postando comentários, checando o status de relacionamento alheio... Mesmo estando longe de ser uma geek, não nego que dá uma emoçãozinha aquela música de dor-de-corno-depressivo rolando enquanto revela-se a realidade dos jovens que vivenciam esse mundo virtual.
     Ainda mais sendo brasileira, né. Para minha surpresa, nós lideramos muita pesquisa quando o assunto é Internet. Por exemplo, tirando as piadinhas como #boladepapelfacts, #pliniofacts e #dilmao, o Twitter e outras redes tem conquistado um papel importante no debate político. Até fevereiro, última pesquisa que achei googlezando, o português era a terceira língua mais usada no Twitter (e chegou a ser a segunda). Num balanço geral, o Brasil fica entre os primeiros, quando não lidera,  no uso de redes sociais, como no caso do Orkut.

Crédito: Mídias Sociais Blog

     Mas voltando ao filme, A Rede Social mostra como com uma "simples" ideia pode mudar o mundo, ou de quebra, fazer você rico. Bem, no caso, uma ideia roubada. Quer dizer, nem tanto. Mark Zuckerberg é um gênio. Isso já se mostra no primeiro diálogo do cara com a namorada. Ele, ao meu ponto de vista, é aquele típico pentelho-inteligente. O cara é um crânio, mas tão crânio que não consegue aceitar nada que seja "menos" que ele, ou melhor, que vá de encontro ao que ele acredita. Quando ele leva um pé-na-bunda da namorada, resolve roubar as fotos de todas as alunas de Harvard, que estão em um banco online, e fazer um jogo de "qual é a mais bonita". É, enquanto você, mero mortal, toma uma birita para esquecer, o rapaz invade o sistema de uma das mais prestigiadas faculdades do mundo.
    Com isso, o jogo online faz o maior sucesso - e também traz problemas, lógico. Mas depois da confusão, três estudantes de uma daquelas fraternidades-tipicamente-americanas convidam ele para bolar uma rede social que reunisse os alunos de Harvard. Zuckerberg concorda em entrar no projeto, mas, na verdade, começa a criar sua própria empresa com o amigo brasileiro (que não sabe da proposta que Mark recebeu) enquanto enrola os caras da fraternidade.


     O negócio começa a crescer, é expandido para outras instituições e finalmente foi aberto para geral, como você conhece hoje. Só para nos sentirmos importantes, os caras até chegam a mencionar o Brasil, mas num tom de brincadeira, quando resolvem transferir a empresa de Massachusetts para o Vale do Silício. "Porque não vamos para o Brasil, então?", Zuckerberg sugere a Saverin. O longa se concentra no processo de criação, no início do Facebook, e como Zuckerberg teria sido influenciado por Shawn Fanning, criador do Napster, a expandir seu projeto. Essa nova amizade acaba tomando o lugar de Saverin - que, de início, era diretor executivo da Rede Social. 
     Apesar de ter passado o brasileiro para trás, o filme me deu a impressão de que Zuckerberg não era um pilantra de caráter, apenas se portava como um - talvez por ser frustrado em certas áreas. Afinal, o trabalho todo foi dele, e mesmo que a sementinha da ideia do Facebook tenha sido plantada por outros, era certo que em alguma hora ele iria criar algo inovador. Isso se o longa tiver alguma relação com a verdade, porque Mark Zuckerberg, logicamente, não concorda com os fatos apresentados na trama - o livro Bilionários Acidentais apoia-se, em boa parte, em entrevistas com Saverin e outras pessoas envolvidas.
     Só realço a ótima interpretação de Jesse Eisenberg, que me fez até boiar em certas horas naquele ritmo nerdístico de falar (vida de brasileira sem legenda não é fácil, bixo). O filme é ótimo, tirando talvez não respeitar algo que deveria definir o longa: quem tem um estilo-virtual-de-ser não aguenta ficar mais de duas horas na poltrona - a não ser que o roteiro seja muito, maravilhosamente, fora do comum. E por último, mas não menos importante: porque raios, afinal, vivem colocando o Justin Timberlake para interpretar?  


segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Minha nova paixão

     Enquanto eu me acomodo no estádio cheio, noto as milhares de camisetas verde e amarelas. As cores me lembram um ambiente familiar, mas eu, certamente, não estou num jogo da seleção brasileira. A primeira diferença se dá pelo tamanho do gramado: é verde, obviamente, mas menor que um campo de futebol. As linhas marcadas de cal não acentuam as saídas laterais, linha de fundo e a grande e pequena área; elas traçam um formato que me lembra um grande coador de café, o que me desperta sede e fome. Mas isso também não é um problema, porque o que não falta ao meu redor é comida: ela parece até a coadjuvante do evento. Para todo lado eu vejo nachos, guacamole, burritos, sanduíches, corndogs, imensa variedade de biscoitos, salgados e doces. Definitivamente eu não estou na Vila Belmiro comendo amendoim mofado, pipoca murcha e sorvete de 99 centavos vendo o Santos jogar.
      Pela grande diversidade de comida, naquele memorável domingo de setembro eu pude concluir que meu pré-julgamento estava certo: por ser um jogo chato e parado, o Basebol requer de seu público toda uma munição extra-lazerística. Era essa a minha ideia inicial, além de acreditar que a única contribuição, em escalas globais, do desporto, era o famoso boné de aba reta que enfeita a cuca de rappers e de todo garoto com tendências-fashion-skatísticas. No entanto, como sempre, eu me descobri completamente enganada. Naquele jogo entre os Oakland A’s e Texas Rangers eu mudei de opinião. Abri meus olhos: mais especificamente, abri meus olhos para a bola de Basebol que, na média de 150 quilômetros por hora, veio na minha direção e me acertou no meu primeiro jogo. E isso em apenas 5 minutos de partida. Ops, de jogo.


Antes do jogo começar


      Eu sempre tive trauma com bolas, elas parecem voar de encontro à minha cabeça. Por isso eu odiava o vôlei e suas bolas altas e tinha pavor de ser escalada como goleira na Educação Física. Quando eu soube que estava sentada na diagonal do pitcher (lançador) e do batter (batedor), onde exatamente as bolas "falhas" vão (quando o batedor bate mau e a bola vai na direção errada), sabia que algo não ia sair bem. Me disseram para eu estar atenta e tomar cuidado, mas a cena foi muito rápida para uma reação.
      Em menos de cinco minutos de partida, enquanto a mãe de meu tio, mais de 80 anos - muitos destes vividos em campos de Baseball -, tentava me explicar as regras do jogo, o batedor resvala na bola e ela sobe, sobe, sobe e... peraí, "ooolhaaa, a bolinha tá vindo na minha direção!" (naquele jeito lesma-Marianístico de ser). Enquanto eu olho ela, bonita, subindo, subindo, ouço uma voz distante interromper minha divagação:
       - Mariana, toma cuidado, olha a bola!

Eu sei, eu também me perguntei:
pra quê tanto cara pra segurar uma mangueira?

      Eu achei que tinha voltado no tempo, e lembrei de quando um dia, enquanto brincava no mar, meu amigo gritou estas mesmas palavras. Seu gesto fez com que eu me virasse - e instantâneamente tomasse uma bolada em cheio na cara. Talvez por essa lembrança, consegui reagir mais rápido no Baseball e só pensei em cobrir minha cabeça. Quando achei que aquele milésimo-de-segundo-eternidade havia passado, senti um soco rápido e certeiro na costela, talvez parecido com o que meu irmão gostava de me dar quando ele me chamava para "brincar de lutinha". Eu destapei meus olhos, apalpei minha costela e olhei para o canto do banco procurando a bola. Nada. Me acomodei para a frente, mas senti algo nas pernas. Olhei para o meu colo, e lá estava ela, pequena, branca e aparentemente inofensiva. De repente, todo mundo gritava e apontava para mim "Ela pegou, aqui, aqui!". 
      Após aqueles 15 segundos de fama, e as saudações de "quanta sorte eu tive" de pegar uma bola no meu primeiro jogo, já que tem gente que vai em Basebol a vida toda e não pega nenhuma, me senti especial. Ganhei um cartão no qual era informada que agora eu fazia parte do seleto grupo de "pegadores de bola"; na verdade, eles só queriam saber se eu tinha me machucado - uma bola dessas pode te cegar ou quebrar ossos. Mesmo assim, com meu ego inflado, resolvi prestar atenção ao esporte. Tentei entender a movimentação básica e uma parte razoável das milhares de regras. Seria estupidez minha tentar explicar aqui o jogo, já que até hoje, após algumas aulinhas com meu tio, ainda me sinto ignorante no assunto. É a mesma desculpa que mulher dá sobre impedimento: a gente sabe o que é mas não sabe explicar. 

Minha primeira bola no meu primeiro jogo de Basebol!

      Mas o básico seria assim: os times trocam de papel. Uma hora você bate, outra você lança. O objetivo é marcar pontos, e para isso você tem que estar no papel do batedor, porque você tem que conseguir bater a bola longe, fora da área do jogo, onde o time adversário não vai conseguir pegar com suas luvinhas de forno. Esse é o tal do famoso home run. Quando você consegue isso, você pode dar a volta toda pela base e "correr para casa" - tipo aquela cena bonita de filme americano quando o cara bate na bola, larga o taco e corre sorrindo e acenando como se estivesse desfilando no Miss Mundo. Aí ele faz um ponto. 
      Mas nesse meio tempo, às vezes o cara não bate com tanta força, a bola respinga meio longe e os adversários não pegam ela há tempo - e é aí que você, mesmo que não consiga completar a volta toda, pára em alguma das bases (aqueles quadrados brancos). Se o adversário não jogar a bola "respingada" de volta para o parceiro dele que está na base e você correr para lá antes dela chegar, aquele espaço é "seu". Isso é um meio caminho, e se outras batedores do seu time forem conseguindo bater essa bola "respingada" e alcançar as bases, cada um vai se posicionando no jogo e, no final, se um dos seus conseguir bater o home run, você ganha não só um ponto, mas acumula mais pontos com cada carinha do seu time que está em uma base. Mas isso é o grosso-do-grosso-do-grosso do jogo.


      Esse bando de regra pode parecer chato, mas quando você começa a entender, descobre qual a emoção do barato: Basebol é expectativa. É sempre uma ansiedade pensar se vai ser na próxima jogada que o home run vai aparecer. E o jogo é dinâmico, os papéis se invertem. Quando seu time está na posição "defensiva", ou seja, é seu time que lança a bola, você espera que seu pitcher consiga atirar a bola com tanta força, curva e destreza que o batedor não vai conseguir rebatê-la. E é aí que se pode fazer uma comparação torta com nosso querido futebol: se o time adversário não é ofensivo o bastante, ou seus atacantes são o máximo, o goleiro fica lá encostado no gol, de figurante, sem trabalhar e sem ser lembrado. No Basebol, num momento suas energias estão concentradas em agir ofensivamente (bater a bola), na outra, em ser defensivo (lançar a bola e ser capaz de pegâ-la quando rebatida), e isso tudo com dinâmica, numa igualdade de importância e tempo para cada jogador.
      Essa dinâmica de supresas e ansiedades me fez entender o porquê de tanta comida no estádio. Não se trata de cultura fast-food (quer dizer, até é, mas nem tanto) ou de um lazer extra para a entediante partida, mas é uma forma de libertar as frustrações quando aquela bola parecia um home run mas é um out. Os americanos são muito educados para estarem a todo momento xingado o juíz e mostrando a selvageria. Enquanto o típico brasileiro grita o já tradicional coro "Ei, juíz, vai tomar no cú!", o americano se limita ao "That's not fair" (Isso não é justo). Quer dizer, eles até xingam, mas a educação é a que reina. Mas não pense que eles não vibram, eles tem seus hinos e milhares de balagandãs, cartazes e palmas de incentivo a cada mínima jogada bem feita - ou mal feita.


      É lógico que não tem como comparar o ritmo do futebol, sempre correndo, ativo. Basebol tem suas paradas, bolhas falhas, sinais, mais estratégias e menos movimentação. Mas força é o que não falta (como disse lá em cima da velocidade da bola). Eles até correm, mas só quando "necessário". Eu gosto desse tempinho para descansar dos americanos porque acho que eu tenho um organismo, vamos dizer, basebolístico. Eu sempre fui a "tipa" Romário no futebol. Entrava toda disposta, malandra, corria, dava uns piques que faziam os outros acreditarem que "eu prometia algo", aí ficava asmática cinco minutos depois e me posicionava que nem um cone na área, só, folgadamente, esperando que alguém me desse o toque para chutar ao gol. Meu tempo é de Baseball. Eu corro bem, mas é só naquele momento (quer dizer, naqueles cinco minutos iniciais).
       Não há como comparar os belos dribles, fintas e maravilhosas jogadas do Futebol, mas o Basebol também tem seu charme. A forma como o batedor se contorce para acertar a bola e o lançador para jogá-la; o jeito que o jogador se estica para pegar um bola que é quase um home run ou como o corredor se joga no chão para encostar seus pés na base; tudo isso me faz encarar o Basebol como um balé. O Futebol sempre será o número um no meu coração, mas o Basebol já ocupou seu espacinho.

Os Giants ganharam minha simpatia.
Mas eles tem uma tendência corinthiana que não me agrada.
Sou santista, não sofredora.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Diário de um tiete

Por mais clichê que isso possa soar, ou pior, piegas, o dia mais esperado, e possivelmente, um dos mais especiais da minha vida foi este último dia 5 de outubro. Por quê? Eu fui ao show da banda G. Love and Special Sauce. Quem? Isso mesmo, G. Love and Special Sauce. Os caras podem até não fazer muito sucesso no Brasil, com uma comunidade orkutiana que não passa dos 1.500 membros, mas aqui na Gringa eles até tem um público fiel (no Facebook tem cerca de 60 mil fãs). Mas eu só sei que nada importa, porque 5 de outubro foi f*%# e não me coibirei de demonstrar minha pieguice-de-felicidade-transbordante neste singelo post.



Como posso começar? Talvez em cerca de 4 ou 5 anos atrás, quando eu, numa entediante noite, fuçava no computador do meu irmão. Em uma pasta aberta, achei uma música dissonante junto dos arquivos de Jack Johnson. “G. Love and Special Sauce?. Mas que nome ridículo é esse?”. Eu fui, cliquei, e algo inesperado aconteceu: eu gostei do que eu ouvi pra carái. Aquela música invadiu meus poros como nunca. A mistura do rock blueseiro, muita gaita e um jeito de cantar à lá hip hop me viciou, e a partir daquela fatídica noite GLASS tornou-se elemento indispensável para o meu bem-estar diário.



A primeira coisa que me passou pela cabeça quando eu estava à caminho dos EUA era a possibilidade de ir no show dos caras. E eis que este dia chegou. O GLASS abriria para o Jack Johnson, o mesmo cara que estava lá na pasta do PC do meu irmão. Nada mais conveniente do que isso, além do fato deste show ser realizado na cidade que estou estudando.
Com isso, o grande dia chegou. Pensando na possibilidade de poder encontrar os caras e talvez tirar uma foto, resolvi escrever uma carta. Unindo-se à minha síndrome de tiete, a desculpa para tal fato ridículo poderia ser uma predileção ao ato devido minha formação profissional – agora falei bonito. E outra, se não pudesse falar com os caras, ou pior, ficasse muda por estar nervosa e ter que falar em inglês, sanava os dois problemas e alcançava meu objetivo: fazer o GLASS saber que eu curto o som deles pra carái e que eles fazem uma sul-americana muito feliz, principalmente nas tardes em que, montada em sua bicicleta, ela passeia olhando o mar e curtindo um som!



Enfim, o dia chegou e eu, que deveria estar mais cedo em Berkeley para assistir minha aula, fui abençoada pela sorte de um contratempo. Cheguei lá atrasada por causa do metro e teria que entrar na aula meia hora depois. Esse revés fez com que eu pensasse: por que eu não passo lá no teatro e vejo como tá a situação da fila, já aproveito e vejo se a banda já tá por lá? Eis que eu fui, cheguei lá e existiam meros cinco mortais. Nada demais. Resolvi perguntar para uma funcionária se já tinha chegado algum músico, o que é claro, ela rejeitou em dizer afirmando que "sabia menos que eu". Resolvi ir do outro lado do Greek Theatre, e percebi que alguns ônibus de tour já estavam parados. Na entrada do estacionamento estavam três caras, e um deles, com seu estereótipo curtidor de Jazz que acha Jack Johnson e G. Love “for girls”, me diz que os músicos deveriam entrar por lá, mas que não iriam parar o carro.


Como eles eram amigáveis e só havia eu ali mesmo, resolvi esperar. Alguns minutos depois eu vejo um cara, que deve estar com seus 40 anos, caminhando pra fora do estacionamento, de óculos e boina. PQP. É O HOUSEMAN! (baterista do GLASS). Sem saber o que fazer, eu começo a chamá-lo timidamente. Ele olha como quem diz “Você tá falando comigo?”, e vai encurtando o andar. Explicação: G. Love, o vocalista, guitarrista e gaitista é a estrela da banda, os outros (agora entendi) são meros coadjuvantes. Ele, ainda cético, me olha surpreso. Eu começo a desferir todo o meu amor à música, entrego a carta, e ele fica meio que abismado. Pergunta meu nome, de onde sou, e me dá a triste notícia de que eles só tocariam por 40 minutos. Ao ver meu descontentamento, me avisa que eles tocariam no dia seguinte em Chico, mas aí fica muito longe pra mim.
Eu ainda comento como fiquei feliz em saber que a banda toda ia tocar no dia, porque achei, de início, que o show seria só o G. Love no violão e gaita. Ele fica meio que admirado, mas insiste que “o G. Love já deve estar chegando por aí”, o que me pareceu, em entrelinhas, um “não sou ninguém, o cara que você admira já tá vindo”. Converso mais alguns minutos, tiro uma foto e ele vai embora. Para mim aquilo já seria o suficiente. Mas não. Passados dez minutos, um carro se aproxima do estacionamento. Eu olho, e no banco ao lado do motorista está ele: Garrett Dutton, ou G. Love. Não posso negar que fico mais em choque do que quando vi o Houseman. Querendo ou não, o cara É O CARA. Tem presença.





Para não dar uma de fã louca, eu só chamo uma vez e faço sinal de querer uma foto. Não é nada demais, até porque só eu estou ali. Aliás, nenhum dos caras do estacionamento sabiam que o Houseman era o Houseman, que o G. Love era o G. Love. Só eu ali estava dando ibope. G. Love, com seus óculos escuros, pareceu meio mala, e uma pontinha de desapontamento surgiu em mim. Mas aí quando eles começaram a sair do carro, percebo que simplesmente o MARK BOYCE (tecladista) também estava ali. PQP! Eles também se dirigem para o mesmo ônibus que está fora do estacionamento. Falo com Mark Boyce, tiro foto, fico em choque, e eis que a estrela vem: lindo, com seus mais de “seis pés de altura”, segundo as medidas americanas, numa concepção do meu homem perfeito: um jornal em uma mão e um violão na outra.
Eu resolvo dizer, já imaginando o jeito malístico dele, “Oi, eu só queria uma foto”. Eis que ele tira os óculos escuros, mostra-me seus lindos olhos azuis e no tom mais doce diz: “Sure!”. Eu discorro novamente todo meu amor, o motivo de estar ali, a carta, e ele faz um “ooooh” do tipo “eu não mereço, que gracinha” e me dá um abraço. Eu cometo meio que uma gafe perguntando do Timo Shanko (contra-baixista), membro mais recente da banda, porque acho que um cara que sai do ônibus deles era ele, e o G. Love brinca comigo, o que faz o cara querer receber ao menos um aperto de mão. Mas enfim, as poucas palavras trocadas, a foto, o autógrafo e os desejos de bom show que eles me deram me fizeram ganhar o dia. O ano. A década. Sei lá quanto tempo.
Para não ficar aqui discursando cada detalhe de fã-louca-apaixonada, o show é fantástico, sendo que eles abrem com uma das minhas músicas favoritas, Blues Music. E não pára por aí. Tocam Booty Call, com direito a paradinha para perguntar ao público se eles querem a versão “limpa” ou a “suja”, e a perfeita Cold Beverage. Não tem comparação ver os caras tocando ao vivo. É mágico. Tirando o curto show deles, meu dia se torna o mais-perfeito-dos-perfeitos. Para fechar, além do show de Jack Johnson, que arranca suspiros da platéia, com toda a razão, ao lado do fantástico Zach Gill, que manda muito bem no piano, eu ainda tenho a oportunidade de rever Garrett Dutton. Após o show, ele assina pôsteres para a ínfima fila de 20 ou 30 neguins - num show de 8 mil pessoas. Eu, encabulada, quando o vejo, penso que ele vai me receber com um sorriso amarelo de “essa pentelha aqui”, mas ele me olha e diz “Tudo bem?”. Não é um mero tudo bem, é um “Tudo bem” em português mesmo. O que mais eu quero dessa vida?


quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Etiópia, Mianmar e estereótipos

Há cerca de três anos eu postei neste blog uma nota intitulada “Por uma Birmânia Livre”. Apesar de ter participado da tal corrente da Internet que pregava apoio à revolução pacifista na Birmânia - também conhecida pelo nome de Mianmar -, eu não tinha a mínima ideia do que estava fazendo. Nunca havia ouvido falar sobre a nação ou lido sobre os problemas sociais e políticos; apenas quis dar uma de cool na condição de pseudo-estudante-de-jornalismo-socialista-comunista. Portando tal codinome eu deveria estar sintonizada com esses tipos de “assunto” que ninguém nunca discutiria numa conversa de bar, só pra exercer minha função de informada – mesmo que muito má e porcamente.
Afinal, ninguém iria me questionar sobre o tal paisíco ao sul da Ásia. O post foi apagado da minha memória até que há algumas semanas atrás, no primeiro dia de aula de ESL de Vocabulários e Expressões, ele me veio à cabeça. Entre os diversos colegas de sala que venho tendo a oportunidade de conhecer, eis que um gordinho, que a mim parecia a perfeita encarnação de Buda, faz a revelação bombástica: ele é birmanês.


A revelação ocorre porque o professor, com seu jeitinho americano à lá Charles Chaplin, decide começar a aula com uma brincadeira: adivinhar o país de origem dos alunos. Após sair-se bem na diferenciação do bloco de muçulmanos, chutando certo entre os colegas do Irã, Iêmen, Omã, Turquia, Marrocos e Paquistão (vacilando apenas na muçulmana que vinha do Sudão), o professor hesita no rosto do birmanês, já que havia esgotado todas as possibilidades asiáticas. O rosto redondo do Buda, que me lembrava a imagem dos povos da Mongólia, tornou-se um desafio. O professor já havia diferenciado os chineses dos sul-coreanos e japoneses, e conseguia discernir com facilidade a diferença entre os colegas do Nepal, Filipinas, Camboja, Vietnã, Tailândia e Laos.
Quando chegou a minha vez, a minha cara latina (?) fez com que ele chutasse Colômbia. Mas voltando ao birmanês, eu fiquei intrigada, e não perdi a oportunidade de perguntar se ele havia ouvido falar da corrente na Internet sobre Mianmar. Ele me respondia tudo com a monossílaba "sim". Ao final, quando eu perguntei o que ele achava do apoio, ele respondeu - num tom de desabafo com leve irritação: “Quem está no Governo não é bom, mas a oposição também não é”. Sem querer testar a paciência do mais novo colega, resolvi deixar para mais tarde as milhares de perguntas que rolavam na minha cabeça, já que nesse meio tempo de convivência com o multiculturalismo americano aprendi que a minha conduta latino-americana não combina, inicialmente, com a reserva oriental e/ou muçulmana.

Budismo é a religião oficial em Mianmar

Outra coisa que aprendi é: não compactue com estereótipos. Outro dia, numa conversa com um garoto da Etiópia, descobri que neste país a língua oficial chama-se Amharik (Amárico em português). O idioma é de origem africana porque a Etiópia foi uma das únicas nações africanas que não sofreu colonização europeia. Meu colega etiopiano disse que houve uma curta ocupação italiana, mas o exército nacional conseguiu expulsá-la. No entanto, existem muitos muçulmanos no país, tanto que o “Oi” deles é o “Salam” arábico. Mas todos vivem em perfeita harmonia.
É claro que essa historia não colou de inicio. Se eu comentava a minha conversa sobre a  Etiópia com alguém, sempre me respondiam com certeza que “Eles já foram conquistados por outros povos, sim. Se tudo é lindo desse jeito porque toda aquela pobreza? Então porque ele está aqui?”. No entanto, quando eu fui pesquisar sobre a Etiópia, não é que era tudo verdade mesmo?. “Mas e a pobreza?”, pergunto ao etíope Tomas. “Ah, o problema é o Governo. La você só consegue um emprego se estiver envolvido com o partido e concordar com ele”. Bom, ao menos a história de culpar os europeus imperialistas (que eu sempre usava pra irritar a minha avó portuguesa) não vai funcionar na Etiópia.
Mas mesmo assim, porque é que a gente sempre tem que olhar pelo lado problemático?. Tomas não tinha muitos problemas na Etiópia, sua vida era a de um cidadão talvez “classe-média”. É claro que veio aos EUA por oportunidades melhores, e principalmente, por causa de parentes que aqui estão – o que não o difere de qualquer brasileiro que vem para cá. É logico que os problemas existem, o povo sofre com a fome e miséria (como você pode confirmar jogando Etiópia no Google Imagens), mas também se deve olhar por outras perspectivas.

Celebração religiosa na capital da Etiópia, Adis-Abeba
(a maior parte da população é cristã, da Igreja Ortodoxa Etíope)

Olhar por outras perspectivas é o que propõe a escritora nigeriana Chimamanda Adichie, neste brilhante discurso chamado “O perigo de uma única história”. Se você só ouvir um lado da história, ela tende a ser parcial, numa única versão – o que muito ouvi na minha época de pseudo-estudante-de-jornalismo-socialista-comunista. Mas é claro que eu não posso deixar de pensar que esses dois colegas também estão dando suas visões da história, mas eu não acredito também que eles sejam os únicos de seus países na mesma situação – e modo de pensar.
Recentemente fiz um curso de verão em uma grande universidade, onde os estudantes estrangeiros eram ricos, vindos não só da Ásia como também da Europa. Agora, na nova faculdade o cenário é diferente. O curso, semestral, requer um longo tempo de estadia aqui, então os alunos não são meros turistas, mas imigrantes. Alguns tinham uma vida boa em seus países de origem; portanto, possuem condições de bancar um curso na Gringa. Por outro lado, muitos vieram em busca de uma oportunidade melhor e trabalham duro para sobreviver e estudar. No entanto, isso não significa que eles tem de deixar toda a bagagem cultural para trás só para não sustentarem a ideia de que estariam cuspindo no prato que comeram. Como diria Adichie, o estereótipo não precisa ser algo totalmente irreal, mas é uma visão singular e restrita do plano geral.